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Revista Eletrônica Barradão On Line é um veículo independente, com
edições publicadas semanalmente, sobre o Esporte Clube Vitória -
Salvador - Bahia - Brasil
Revista Eletrônica BOL - Edição nº 128 - 25 a 31 de
julho de
2010
Foto:
Fernando Amorim/ Ag. A TARDE
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Artigos ::
Vitória X São Paulo (bye, bye, tabu)
Ricardo Cury
Freqüento regularmente o Vale do
Capão, na Chapada Diamantina e, desde que fui lá pela primeira
vez, nos idos dos anos 90, fico hospedado no Sempre Viva, um
camping-pousada de propriedade de Lili. Lili é nativo do Vale e,
além da pousada, também é dono de um mercadinho, de um
restaurante, de terrenos e diversos outros negócios. E, como a
maioria dos moradores da região, assim como do interior de todo
o estado da Bahia, ele não torce nem pro finado Bahia nem pro
Vitória.
– Como a imagem que chega aqui vem da parabólica, só captamos o
sinal do Rio e de São Paulo, daí nunca vemos os jogos da dupla
baiana – justifica ele, que é são-paulino.
Em 2008, ano da volta do Vitória para a primeira divisão do
Brasileirão, eu estava indo pra todos os jogos e o time não
havia perdido nenhuma partida no Barradão. Até que chegou o jogo
contra o São Paulo e eu não pude ir por motivo de força maior.
Um cantor do Rio de Janeiro chamado Baia iria se apresentar em
Salvador e, pra economizar os custos, viria sem banda, usando
músicos locais. Fui escalado pra ser o baterista e um dos
ensaios foi justamente no horário do jogo. O Vitória perdeu o
jogo e a invencibilidade em casa.
Em 2009 eu estava indo pra todos os jogos e o time não havia
perdido nenhuma partida no Barradão. Até que chegou o jogo
contra o São Paulo e eu não pude ir por motivo de força maior.
Trabalhava numa agencia de propaganda e a equipe de criação teve
de trabalhar o fim de semana todo para finalizar uma campanha.
Passei o domingo na agencia, ouvindo o jogo pela rádio, ao lado
de diversos infelizes torcedores do Bahia. O Vitória perdeu o
jogo e a invencibilidade em casa.
Em 2010 eu estava indo pra todos os jogos e o time não havia
perdido nenhuma partida no Barradão. Até que chegaria o jogo
contra o São Paulo e, mais uma vez, eu não poderia ir por motivo
de força maior, pois no mesmo final de semana teria a travessia
de Juazeiro, pelo circuito baiano de maratonas aquáticas,
nadando pelo rio São Francisco. Há anos que essa travessia não
entrava no calendário, mas também há nove anos que o Vitória não
ganhava do São Paulo. O último triunfo, por ironia do destino,
foi quando Ricardo Gomes, atual técnico do São Paulo, era o
técnico do Vitória. O placar foi o acachapante cinco a um.
Quando vi que a data da travessia se chocaria com a do jogo
contra o São Paulo, optei pelo futebol.
Fui com alguns amigos e fora do estádio, outra ironia. O
candidato a deputado federal Juliano Matos distribuía panfletos
para os torcedores, fazendo a rua ficar imunda com sua cara
sorridente pelo chão. Aí vem a chuva, esses panfletos vão
entupir os bueiros, vai alagar tudo e vai ser aquela imundice e
aquele caos... A ironia é que esse candidato é do PV (Partido
Verde).
Entrei no estádio e percebi uma pequena confusão formada, graças
à novidade do Barradão. O setor para a torcida adversária agora
tem uma entrada separada e isolada, isso para evitar o confronto
direto entre torcedores desordeiros e, principalmente, para que
o Vitória possa cobrar preços diferenciados, o que acho
coerente. O cara vem torcer contra e paga a mesma coisa? Nada.
Não gostou? Não venha. Mas aconteceu que alguns são-paulinos
compraram ingressos “normais”, entrando pelas catracas “normais”
e, quando viram que não poderiam ir para a sua torcida, tiveram
de ser fortemente protegidos pela policia.
– Rá, rá, rá, se descer vai apanhar – gritavam os rubro-negros
para os são-paulinos, que olhavam assustados para baixo.
Levar mulher pra estádio é sempre complicado. Ali é um lugar que
naturalmente os ânimos já estão exaltados. E levar mulher pra
estádio que vai vestida de periguete é pedir pra ser escaldado.
Um cara, sem camisa de time, levou a namorada que chegou com
duas jabulanis querendo saltar pra fora do pequeno decote e com
uma calça colada também com duas jabulanis traseiras querendo
pular pra fora. Os rubro-negros esqueceram um pouco os de cima e
passaram a gritar “gostosa, gostosa, gostosa”. O cara ficou
naquela de “peraí, galera, tá comigo, que é isso?”. A jabulosa e
o desavisado saíram de cena e o “rá, rá, rá, se descer vai
apanhar”, voltou.
A polícia, evitando que algo violento acontecesse, finalmente
deixou que eles entrassem no curral – apelido dado pela torcida
do Vitória para a passarela por onde os torcedores adversários
passam – mesmo pagando menos, o que irritou muitos rubro-negros.
– Se fosse lá em São Paulo ou a gente voltava pra casa sem ver o
jogo ou ia ter de tirar a camisa e ver o jogo com a torcida
local, ficando quieto, sem torcer – disse um torcedor puto da
vida.
Enquanto os visitantes desfilavam pela passarela, ouviam o coro
“au, au, au, vai passar pelo curral”.
Nos posicionamos colado com a torcida adversária. O jogo começou
e o Vitória já começou dizendo quem é que mandava ali.
– Bora, Vitória, que dessa vez eu to aqui – moleculava eu, da
arquibancada.
E o Vitória tentou com chute de fora da área, de dentro da área,
até que num cruzamento primoroso de Egídio, Elkeson pensou mais
rápido que o zagueiro paulista e fez um a zero pro Vitória, de
cabeça. Rogério Ceni nem se mexeu.
O rubro-negro continuo com fome de gol, mas não marcou. Já o São
Paulo, no único vacilo do Vitória, empatou o jogo. Hernanes
tabelou com Jean que chutou no canto de Viáfara. Um a um. Os
tricolores paulistas e baianos deliraram com o empate.
Mas mesmo com o gol sofrido, o Vitória continuou mandando no
jogo e teve chances de ampliar o placar, mas o primeiro tempo
terminou um a um.
Depois do intervalo, os dois times voltaram pro campo e Rogério
Ceni dessa vez ficaria perto de sua torcida.
“Puta que pariu, é o melhor goleiro do Brasil”, gritavam eles,
se esquecendo que o melhor goleiro do Brasil estava do outro
lado do gramado.
O segundo tempo começou e o Vitória, de novo, começou mostrando
quem é que mandava naquele santuário ali. Logo aos dois minutos
de jogo, em outro cruzamento rpimoro de Egídio, Schwenck
cabeceou e o goleiro mais chato do Brasil ficou retadinho com o
gol sofrido. Dois a um Vitória.
Filmando a cabisbaixa torcida do São Paulo avistei um pobre
torcedor do defunto, colado no alambrado. Não ter time pra
torcer deve ser uma merda mesmo. Apontei minha filmadora pra ele
e fui em sua direção. Ele não percebeu que eu me aproximava.
Enquanto eu chegava perto, um torcedor do São Paulo mandou ele
vestir uma camisa do São Paulo por cima.
“Com essa urucubaca de time de segunda divisão você vai dar
azar”, deve ter pensado o são-paulino, com razão. Cheguei perto
dele e quando ele me viu filmando, eu disse:
– O Bahia tá acabado.
A torcida do finado tá muito nervosinha. O cara enlouqueceu.
– Va se fuder, tomar no cu, sou bi...
Ui, ui, ele é bi. E como eu já disse aqui, não tenho
preconceito, mas sou hétero.
Logo depois, aos 12 minutos, após uma triangulação mortal entre
Schwenck, Elkeson e Ramon, a bola sobrou redondinha pra este
último. Rogério Ceni pensou que ele ia mandar a bola pra cá, mas
Ramon mandou pra lá... Três a um.
– Esse jogo vai ser cinco a um de novo, esse jogo vai ser cinco
a um de novo – gritava um torcedor do meu lado.
O São Paulo veio pra cima e até conseguiu um golzinho muxoxo,
mas nada que preocupasse.
Já no fim do jogo, com os tricolores em silencio e sem força,
dentro e fora do campo, ouvi alguém gritando:
– Ô, rapaz.
Olhei pra torcida do São Paulo e percebi que era pra mim. Era
Lili. Nunca o tinha visto fora do Vale. Queria ter dado um
abraço nele, mas o alambrado e a policial colada nele não
deixariam. Tinha uma parte rasgada e nos demos a mão.
– Cadê, você, nunca mais foi no Capão – disse ele.
– Porra, Lili, é verdade, é que meu filho nasceu e vou ter de
esperar ele crescer um pouquinho pra ir...
Ficamos conversando amenidades e nos despedimos. Mas antes, eu
perguntei:
– E você saiu de lá do Capão pra ver o São Paulo perder, hein?
– Porra, com esse juiz aí... – se desculpou ele, sem perceber
que o Vitória ganhou porque, talvez, de repente, dessa vez eu
fui, e porque, com certeza, Nino Paraíba (esse cara é foda),
Elkeson (esse também), Ramon (esse também), Viáfara (o melhor
goleiro do Brasil), Ricardo Conceição, Anderson Martins,
Wallace, Egídio, Vanderson, Fernando, Schwenck, Neto Coruja,
Renato e Renan Oliveira jogaram pra caralho.
Veja o vídeo da partida, com
direito a faniquito do torcedor do Bahia.