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Revista Eletrônica BOL - Edição nº 107 - 21 a 27 de fevereiro de 2010

Foto: Alexandro Ribeiro

:: Artigos ::

Pra não esquecer

Renato Ribeiro

Caros rubro-negros,

Aqui estou eu em casa, em plena terça-feira de carnaval, descansando após dois dias de festa momesca. Acabei me motivando em escrever esse texto após testemunhar várias demonstrações de amor ao Vitória no circuito Barra/ Ondina. A cada vez que eu identificava uma bandeira rubro-negra nas “ruas do carnaval”, várias passagens da minha vida relacionadas ao Leão da Barra vinham à tona como, por exemplo, as quedas às séries inferiores e posterior renascimento do clube. 

Foi muito duro ver o Vitória chegar ao fundo do poço. Lembro bem do vexame dado em 2004, frente à Ponte Preta, na nossa última participação na “primeirona” até então. O clima era de terror. A torcida indignada, protestava de maneira agressiva no Manoel Barradas e a polícia agia com rigor, lançando bombas de gás lacrimogêneo no alambrado e nas arquibancadas. Meu pai estava recém operado de catarata e, ao mesmo tempo em que eu tentava dar assistência a ele, observava o corre-corre e angústia das pessoas. Foi aí que testemunhei a cena de um garotinho chorando, sendo consolado pelo pai: 

- Pai, o Vitória caiu pra segunda divisão! Ele vai voltar né, pai? Desabafou o ingênuo e jovem rubro-negro de aproximadamente oito/nove anos. 

- Volta, filho! Ano que vem o Vitória sobe! Respondeu o desolado pai.  

Esse momento me marcou. Confesso que, nessa hora, a ficha caiu. O Esporte Clube Vitória, uma das mais importantes instituições esportivas do país, após aqueles tristes 1x2 contra o Fluminense-RJ na Fonte Nova, em 1991, era novamente rebaixado. O pior é que o martírio estava apenas começando... 

Ano seguinte, nova queda. Só que dessa vez, a “morte” não foi tão anunciada como a que aconteceu na temporada anterior. O Leão “enganou” o torcedor com uma colocação intermediária durante boa parte da disputa, porém, perigosa, na qual a sentença só se confirmou logo após o empate diante da Portuguesa em 3x3, também no Barradão. Não esqueço do choro de Tiago Ferreira, da tristeza de Léo Machado e do desespero de Ricardo Nery, que ficava contando a todo instante os pontos, no intuito de identificar o último dos rebaixados. E era o Vitória. 

Mas como todo pesadelo tem seu fim, o Rubro-Negro foi forçado a mudar. E, com isso, mesmo que aos trancos e barrancos, o progresso veio. Após um início dramático de terceira divisão e octogonal idem, o Vitória vence o baVi de Feira, decola na competição e pula do “inferno” para o “purgatório” do futebol nacional. Para quem estava acostumado com conquistas muito maiores, aquele momento foi comemorado como um título nacional, afinal só quem vivenciou a realidade da série C sabe o quanto “subir de degrau” tinha sido difícil. 

E veio então o ano de 2007. Recordo que o Vitória era quase que imbatível em casa, mas fora, deixava muito a desejar, sendo inclusive goleado de forma impiedosa pelo Brasiliense, de (pasmem) Alan Dellon, por 6X0, custando a demissão do treinador Givanildo Oliveira. Mas, mesmo assim, o Rubro-Negro, empurrado pela sua apaixonada torcida, conseguiu a tão sonhada volta à elite do nosso futebol. Quem não se recorda do dia em que o grito de “Vamos subir, Nêgo!” se tornou “Eu já subi, Nêgo!”? 

Aqueles 4x1 diante do CRB jamais serão esquecidos. Quando cheguei no Barradão, havia um clima muito positivo, que transmitia a sensação de que todos sabiam que aquele era “o dia”. Os resultados negativos dos concorrentes diretos acabaram por favorecer e, quando a bola rolou, o Leão foi fantástico. O caldeirão fervia, os jogadores lutavam muito e a série A pedia o Vitória de volta. E, na minha opinião, isso foi sacramentado após aquele golaço de Willians Santana, o segundo do jogo. Naquele momento, eu desabei. Léo percebeu a minha emoção e numa clara e verdadeira demonstração de amizade iniciada nas arquibancadas da vida, em prol do rubro-negro baiano, me deu um grande abraço e berrou: “Subimos, porra! Vitória, porraaaaaa!”. 

Após a partida, farreamos no famoso isopor da “Tia Nice”, nas imediações do nosso santuário e, em seguida, ganhamos as ruas de Salvador. Mas, por incrível que pareça, o momento de maior emoção para mim estava reservado para quando eu chegasse em casa.  

Ao adentrar no meu lar, já na madrugada, cheguei no meu quarto, sentei na cama, tirei a camisa rubro-negra e a cachola começou a matutar. Nesse momento, todo o filme da guerra pela qual o Vitória travou (incluindo o choro do garotinho, a revolta da torcida, o desespero dos amigos, os revés e triunfos inesquecíveis, como os 3x2 no São Caetano, com gol de Sorato no fim do jogo) passou em uma fração de alguns minutos.  

Fora que, naquela época, eu também estava passando por vários percalços (profissional/ pessoal) e a ascensão do nosso glorioso clube tinha sido, até então, uma das poucas alegrias em 2007. O Leão já tinha me premiado com os inacreditáveis “6X5 de Índio e cia” em abril, e, mais uma vez, me dava esporro de forma memorável. 

Ás vezes na vida, quando nos encontramos envolvidos por problemas diversos, geralmente nos desesperamos e entristecemos, mas naquele momento o Vitória me ensinava que sempre é possível dar a volta por cima. Beijei o escudo, chorei como uma criança, tomei banho, coloquei o manto sagrado em lugar de destaque no quarto e fui dormir. Feliz da vida! 

Saudações Rubro-Negras!

Renato dos Anjos Ribeiro

Rubro-negro e fisioterapeuta.

E-mail: tinhojhow@yahoo.com.br

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