|
::
Artigos ::
Pra não esquecer
Renato Ribeiro
Caros rubro-negros,
Aqui estou eu em casa, em plena
terça-feira de carnaval, descansando após dois dias de festa
momesca. Acabei me motivando em escrever esse texto após
testemunhar várias demonstrações de amor ao Vitória no circuito
Barra/ Ondina. A cada vez que eu identificava uma bandeira
rubro-negra nas “ruas do carnaval”, várias passagens da minha
vida relacionadas ao Leão da Barra vinham à tona como, por
exemplo, as quedas às séries inferiores e posterior renascimento
do clube.
Foi muito duro ver o Vitória
chegar ao fundo do poço. Lembro bem do vexame dado em 2004,
frente à Ponte Preta, na nossa última participação na
“primeirona” até então. O clima era de terror. A torcida
indignada, protestava de maneira agressiva no Manoel Barradas e
a polícia agia com rigor, lançando bombas de gás lacrimogêneo no
alambrado e nas arquibancadas. Meu pai estava recém operado de
catarata e, ao mesmo tempo em que eu tentava dar assistência a
ele, observava o corre-corre e angústia das pessoas. Foi aí que
testemunhei a cena de um garotinho chorando, sendo consolado
pelo pai:
- Pai, o Vitória caiu pra segunda
divisão! Ele vai voltar né, pai? Desabafou o ingênuo e jovem
rubro-negro de aproximadamente oito/nove anos.
- Volta, filho! Ano que vem o
Vitória sobe! Respondeu o desolado pai.
Esse momento me marcou. Confesso
que, nessa hora, a ficha caiu. O Esporte Clube Vitória, uma das
mais importantes instituições esportivas do país, após aqueles
tristes 1x2 contra o Fluminense-RJ na Fonte Nova, em 1991, era
novamente rebaixado. O pior é que o martírio estava apenas
começando...
Ano seguinte, nova queda. Só que
dessa vez, a “morte” não foi tão anunciada como a que aconteceu
na temporada anterior. O Leão “enganou” o torcedor com uma
colocação intermediária durante boa parte da disputa, porém,
perigosa, na qual a sentença só se confirmou logo após o empate
diante da Portuguesa em 3x3, também no Barradão. Não esqueço do
choro de Tiago Ferreira, da tristeza de Léo Machado e do
desespero de Ricardo Nery, que ficava contando a todo instante
os pontos, no intuito de identificar o último dos rebaixados. E
era o Vitória.
Mas como todo pesadelo tem seu
fim, o Rubro-Negro foi forçado a mudar. E, com isso, mesmo que
aos trancos e barrancos, o progresso veio. Após um início
dramático de terceira divisão e octogonal idem, o Vitória vence
o baVi de Feira, decola na competição e pula do “inferno” para o
“purgatório” do futebol nacional. Para quem estava acostumado
com conquistas muito maiores, aquele momento foi comemorado como
um título nacional, afinal só quem vivenciou a realidade da
série C sabe o quanto “subir de degrau” tinha sido difícil.
E veio então o ano de 2007.
Recordo que o Vitória era quase que imbatível em casa, mas fora,
deixava muito a desejar, sendo inclusive goleado de forma
impiedosa pelo Brasiliense, de (pasmem) Alan Dellon, por 6X0,
custando a demissão do treinador Givanildo Oliveira. Mas, mesmo
assim, o Rubro-Negro, empurrado pela sua apaixonada torcida,
conseguiu a tão sonhada volta à elite do nosso futebol. Quem não
se recorda do dia em que o grito de “Vamos subir, Nêgo!” se
tornou “Eu já subi, Nêgo!”?
Aqueles 4x1 diante do CRB jamais
serão esquecidos. Quando cheguei no Barradão, havia um clima
muito positivo, que transmitia a sensação de que todos sabiam
que aquele era “o dia”. Os resultados negativos dos concorrentes
diretos acabaram por favorecer e, quando a bola rolou, o Leão
foi fantástico. O caldeirão fervia, os jogadores lutavam muito e
a série A pedia o Vitória de volta. E, na minha opinião, isso
foi sacramentado após aquele golaço de Willians Santana, o
segundo do jogo. Naquele momento, eu desabei. Léo percebeu a
minha emoção e numa clara e verdadeira demonstração de amizade
iniciada nas arquibancadas da vida, em prol do rubro-negro
baiano, me deu um grande abraço e berrou: “Subimos, porra!
Vitória, porraaaaaa!”.
Após a partida, farreamos no
famoso isopor da “Tia Nice”, nas imediações do nosso santuário
e, em seguida, ganhamos as ruas de Salvador. Mas, por incrível
que pareça, o momento de maior emoção para mim estava reservado
para quando eu chegasse em casa.
Ao adentrar no meu lar, já na
madrugada, cheguei no meu quarto, sentei na cama, tirei a camisa
rubro-negra e a cachola começou a matutar. Nesse momento, todo o
filme da guerra pela qual o Vitória travou (incluindo o choro do
garotinho, a revolta da torcida, o desespero dos amigos, os
revés e triunfos inesquecíveis, como os 3x2 no São Caetano, com
gol de Sorato no fim do jogo) passou em uma fração de alguns
minutos.
Fora que, naquela época, eu também
estava passando por vários percalços (profissional/ pessoal) e a
ascensão do nosso glorioso clube tinha sido, até então, uma das
poucas alegrias em 2007. O Leão já tinha me premiado com os
inacreditáveis “6X5 de Índio e cia” em abril, e, mais uma vez,
me dava esporro de forma memorável.
Ás vezes na vida, quando nos
encontramos envolvidos por problemas diversos, geralmente nos
desesperamos e entristecemos, mas naquele momento o Vitória me
ensinava que sempre é possível dar a volta por cima. Beijei o
escudo, chorei como uma criança, tomei banho, coloquei o manto
sagrado em lugar de destaque no quarto e fui dormir. Feliz da
vida!
Saudações Rubro-Negras!
Renato dos
Anjos Ribeiro
Rubro-negro e
fisioterapeuta.
E-mail:
tinhojhow@yahoo.com.br
-
|