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Revista Eletrônica BOL - Edição nº 105 - 31 de janeiro a 6 de fevereiro de 2010

Foto: Felipe Oliveira | E.C.Vitória

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Ba X Vi II (rebolation in Pituacivis)

Ricardo Cury

Meu filho nasceu no Natal e recebeu do avô o uniforme completo do Vitória.

– Vou dar uma camisa do Bahia pra ele – disseram alguns amigos tricolores ao visitá-lo na maternidade, inclusive o padrinho.

– Pode dar, vai servir pra limpar o cocô – respondia a eles.

Era o primeiro Ba x Vi do ano. O último confronto tinha sido há muito tempo, já que o Bahia não disputa o Brasileirão e foi na final do CampeoNeto Baiano de 2009, no Barradão. Um empate (2 X 2) com sabor de triunfo, pois consagrou o Vitória tri-campeão baiano.

Agora era a terceira rodada do (de novo) Campeonato Baiano. Nos dois primeiros jogos desse campeonato, o Bahia fez oito gols, vencendo as duas partidas. O Vitória fez dois e tomou dois, ganhando um jogo e perdendo o outro. Eles diziam que iam brocar o Vitória.

Eu não ia para o jogo. Era véspera do aniversário de um mês do meu filho e, além disso, eu não estava interessado em pegar fila pra comprar ingresso.

– Bora, man, é um Ba x Vi, o jogo mais emocionante do mundo – disse um amigo meu, tentando me convencer.

– Eu sei, mas não renovei o Sou Mais Vitória e não comprei ingresso – respondi.

No sábado, um dia antes do confronto, parei na farmácia pra comprar fralda e ao puxar o cartão de crédito, a carteira do Sou Mais Vitória caiu no chão. Ao pega-la, bati o olho na validade. Fevereiro de 2010. Era o primeiro Ba X Vi com meu filho nesse mundo. Tinha de ir.

Fui com dois amigos. Chegamos na proximidade do estádio uma hora antes e mesmo assim paramos o carro lá na casa da porra. No Barradão é muito mais fácil. Dez reais o preço do estacionamento. No Barradão é muito mais barato. Diversos motoristas chiavam. Resignados, pagamos o dinheiro e fomos em direção ao estádio. Um torcedor do Bahia colou na gente e começou a tagarelar:

– Rapaz, essas porra é melhor pagar logo. Num já sabe que se não pagar eles arranham o carro?

– É foda – dissemos juntos, quase ao mesmo tempo.

Ele continuou:

– Eu sei que ele não vai tomar conta do carro, mas se não pagar é pior...

– É foda – repetimos.

– Eu mesmo não gosto de dizer que sou policial, mas um dia eu perguntei ao guardador se ele ia olhar meu carro e ele disse que sim e eu então algemei ele na porta e falei “agora eu sei que você vai tomar conta” – disse o policial tricolor, que gosta de de dizer que é policial, dando risada da sua façanha.

– Hehehe... – rimos forçado, ao mesmo tempo.

Depois ele fez um discurso enaltecendo a tranquilidade do futebol baiano, onde rubro-negros e tricolores chegam juntos ao estádio. Não sabia ele que a madeira ainda ia gemer (ou já tava gemendo), entre retardados tricolores e imbecis rubro-negros... Continuamos andando e após um tempo sem conversa, ele disse:

– E meu Bahia hoje vai brocar.

Nessa hora ficamos em silencio, respeitando o sonho do Bruce Willis nagô.

Passamos a andar um pouco afastado e meu amigo comentou:

– Será que vou conseguir ingresso?

O torcedor policial ouviu e respondeu:

– Vendi o de meu filho por oitenta conto.

¬– Oitenta? – perguntamos, espantados.

– Ô... O cara perguntou quanto era, eu disse oitenta pra ver se colava, ele comeu a pilha e vendi...

Continuamos em silêncio e após alguns passos, eu perguntei:

– Seu filho tem quantos anos?

– Catorze – respondeu ele.

PUTAQUEPARIU. Que marca de torcedor é essa? O cara vendeu a emoção do filho por oitenta reais! Realmente a torcida do Bahia está se acabando. De frente pro estádio, isso se comprovou. O número de rubro-negros era esmagador. Paramos para atravessar a rua. Era hora de nos separar.

– Qualquer coisa, é só falar, meu nome é Hélio, mas sou conhecido na corporação por Andrade.

Apertei sua mão e fui embora. Enquanto atravessava a larga avenida, lembrei mais uma vez da venda do ingresso do filho. Olhei pra trás e lá estava Andrade andando sozinho. Gritei pra ele:

– Andrade?

Ele gritou de volta:

– Oi.

– Quem vai brocar é o Vitória.

Foto: Felipe Oliveira | E.C.Vitória

O primeiro tempo só não foi mais chato que torcedor do Bahia bêbado por causa de Viáfara. Foi a sua única participação no jogo. Numa bola recuada pra ele, o atacante (ou algo semelhante) do Bahia foi correndo para fazer pressão em cima e o goleiro rubro-negro deu o velho drible de baba de fim de semana: fingiu que ia dar um chutão, o tricolor acreditou e uepaaaaa,

levou um olé, passando batido pela linha de fundo. Depois disso, Viáfara assistiu ao clássico de camarote. Era seu direito.

Com o gramado parecendo o solo lunar, ficava difícil a bola rolar. Aliás, o estádio de Pituaçu todo é ruim, o que talvez explique o fato de os tricolores gostarem dele, já que há muito tempo eles estão acostumados com merda. As cadeiras são coladas umas nas outras, nos quatro lados. É todo mundo espremido. Pra andar tem de pisar nos acentos. No Barradão é bem melhor, pois o cara da frente fica quase a um metro de distancia de você. Lá, talvez por essa dificuldade de locomoção, raramente passa um ambulante. Fiquei o primeiro tempo com sede. Quando achei um que vendia água, o cara se fudeu todo pra chegar onde eu estava.

– Esse estádio é uma merda, né não? – disse pra ele, quando se aproximou.

– Porra, o Barradao é bem melhor – respondeu ele.

Acabou em zero a zero, com o Vitória, apesar de ruim, superior.

Antes do segundo tempo começar, Pituaçu mostrou mais de sua força. Caixas de som espalhadas por diversos postes do estádio foram ligadas. O som estridente e mal equalizado ecoava pelos quatro cantos a música “Rebolation” do grupo de pagode Parangolé. No Barradão é bem melhor. Não tem caixas de som.

O segundo tempo começou e com ele a velha e boa superioridade rubro-negra. Logo aos cinco minutos, o atacante Scwhenck, carinhosamente apelidado de Shrek pela torcida, só fez empurrar a bola pra dentro depois de um bate rebate na pequena área. Ramon bateu o escanteio, Wallace cabeceou magistralmente, a bola entrou, o juiz não marcou, o goleiro do Bahia se embananou todo, a bola sobrou pra Shrek que explodiu as redes de Pituaçu. Um a zero. A-ha, u-hu, Pituaçu (também) é nosso.

Depois do jogo o árbitro registrou o gol pra Wallace, porém, duvido que se Shrek não tivesse bicado pra dentro ele teria dado o gol. Pra mim, gol dele.

Os tricolores, que já estavam murchos antes do gol, se encolheram e ficaram caladinhos. O time deles, que estava murcho antes do gol, tentou crescer, mas batia de frente com a inoperância do seu elenco.

E o Vitória administrou o jogo com Nino Paraíba correndo pela lateral feito um doido o que me fez gritar “vai, Apodi”. Apesar do paraibano estar se saindo bem, sinto saudades do maluco beleza.

Índio, o cara que fez quatro gols num Ba X Vi, o que confirma o que Renato Gaúcho disse, que aqui a terra é dele, tentou fazer o seu, mas não conseguiu. Porém, deu o passe para o cara que a imprensa chamava (pelo terceiro ano consecutivo) de velho e acabado. Prestes a fazer 38 anos, depois de jogar os 90 minutos, aos 46 do segundo tempo, Ramon mandou a bola pra dentro, fazendo a torcida do Bahia sumir de vez. Dois a zero.

Fora do estádio, a torcida do Vitória só comemorava enquanto a do Bahia assistia. Até que enfim alguma coisa parecida com o Barradão.

Veja vídeo exclusivo do jogo:

Ricardo Cury

Autor do livro "Para Colorir", escreve o blog Eu Tava Aqui Pensando ou Blá Blá Blá. Publicado simultaneamente com o blog parceiro Vitória no Barradão

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