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Que nos sirva de exemplo
Francisco Ribeiro
Ouvi
recentemente de um mineiro, colega de trabalho, que finalmente a
torcida do Fluminense carioca aprendeu a torcer. O papo começou
quando um tricolor chegou cabisbaixo em nossa sala depois que
seu time perdeu mais uma final pra equatoriana LDU, mas, o que
se viu nas arquibancadas, foi digno de aplauso.
E a
torcida do Fluminense realmente vem demonstrando muito brio
neste final de ano. Há muitas rodadas, pelo Brasileirão, lota o
Maracanã e empurra o time para finalmente sair da zona de
rebaixamento, o que aconteceu na última semana, depois de muitos
jogos sem derrota. Estádio cheio, gritos de incentivo (apenas)
do início ao fim, demonstrações de amor pelo clube.
Foi
incrível ver um time com quase 100% de chances de cair para a
Série B chegar à última rodada com apenas 22%, segundo o site
Chance de Gol. Nunca tinha visto uma união tão grande entre os
jogadores de um grupo, a torcida e o clube. As palavras de meu
amigo mineiro – que torce pro Atlético (MG) e, por isso, entende
muito bem de torcida boa – realmente fazem sentido.
Como morei
no Rio de Janeiro em 1992 e acompanhei de perto as torcidas
locais, nos estádios e nos bate-papos de rua, vejo o quanto a
torcida pó de arroz ficou mais valente. Sempre foi muito
burguesa, mais acomodada e comportada em relação às outras três,
mesmo com uma estável boa média de público. Este ano mostrou
muita raça nas arquibancadas. Foi um exemplo.
Vulneráveis
Enumerei
isso tudo para chegar à nossa realidade. A torcida rubro-negra
tem um bom parâmetro para se guiar. É inegável que a torcida do
Vitória cresceu e amadureceu nos últimos anos, guardadas as
devidas proporções. Vem aumentando a média de público
gradativamente e sendo mais ativa nos bastidores, seja por meio
de veículos independentes de comunicação ou organizações que
atuam também independentemente em benefício do clube. Mas acho
que ainda somos muito vulneráveis aos resultados em campo e à
influência da mídia local, carente de qualidade na informação.
Já fomos
mais fiéis até os anos 80. Mesmo com péssimos resultados em
campo, éramos muito presentes. Aí veio a era PC, com inegável
melhora nos resultados, estrutura e conquistas de títulos. A
torcida cresceu em quantidade, mas acabou mal acostumada a
vencer demais localmente. Após algumas sequências de maus
resultados, o torcedor se mostra logo pedante e impaciente.
Chegou a vaiar a conquista do primeiro tri baiano, diante do
rival, no Barradão, simplesmente porque perdeu o jogo final. Que
diferença da festa dos equatorianos no Maracanã após
conquistarem o título da Sulamericana perdendo pro Fluminense
por 3 a 0, hein?
Por isso o
torcedor do Vitória, que já mostrou evolução quantitativa,
precisa também avançar qualitativamente. Mostrar amor e paixão
pelo seu clube também nos períodos difíceis e não apenas nos
bons momentos. Buscar se informar mais sobre seu clube sem ser
refém de uma mídia de qualidade duvidosa. Tudo bem que o baixo
nível de escolaridade influencia muito na força que um “Bocão”
da vida tem sobre a opinião de um torcedor, mas, juntos, nos
ajudamos a criar um campo de força contra essas forças de fora.
Afinal somos uma grande família que se une e homogeiniza nas
arquibancadas.
Trabalho de
mão dupla
Digo
família porque nem sempre família é um conjunto de pessoas que
bate ponto em casa ou em eventos sociais. Uma família é formada
por quem demonstra sentimento sem esperar nada em troca. É quem
nos faz o bem. Se você se sente assim sendo rubro-negro, o
convido para buscar nosso amadurecimento. Seja na presença em
número, na maneira como torcemos ou no modo como analisamos
criticamente o produto midiático que nos chega aos ouvidos e
olhos.
Claro que
não é um trabalho de mão única. É preciso que o clube se
identifique com este projeto. Se a torcida do Fluminense não
tivesse percebido a união do lado de dentro dos muros das
Laranjeiras, poderia ter tido uma recaída. E aí está a função da
direção do clube, comissão técnica e jogadores: demonstrarem
compromisso para, assim, potencializar a resposta nas
arquibancadas (o que faltou muito ao Leão neste meio de
Brasileirão pra frente). O descaso dos últimos jogos foi de dar
raiva.
E que a
torcida do Fluminense sirva de exemplo, mesmo sem eu saber o
desfecho do rebaixamento neste momento em que escrevo. Vamos lá,
torcida do Vitória. Temos muita força e muito potencial para ser
melhores que eles em alguns anos. Tivemos um excelente lampejo
na Série B de 2007. Naquele momento fomos outro exemplo de
torcida unida, atuante e presente. Ou seja, temos um bom
parâmetro fora e dentro de casa para crescermos.
Francisco Ribeiro
Jornalista e editor da Revista Eletrônica Barradão On Line.
E-mail:
fanque@yahoo.com
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