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Alegria em Matarandiba!
Renato Ribeiro
Caros rubro-negros,
no final da década de 80, meu pai
comprou uma casa de veraneio em Matarandiba, vizinha a
Jiribatuba, uma das últimas “ilhas” a partir de Bom Despacho.
Foi uma época bacana, por lá fizemos muitos amigos e inúmeros
foram os momentos inesquecíveis. Contávamos os dias para que os
feriados ou recesso escolar chegassem logo e pudéssemos curtir a
praia e a galera por lá.
E tem uma experiência que envolveu
o Leão em Matarandiba que jamais saiu da minha memória, mesmo
após anos de meu pai ter vendido o imóvel. Refere-se justamente
a última vez que tínhamos vencido o Flamengo no Rio de Janeiro
(partida também válida pelo brasileiro/ série A), antes daquele
belo triunfo com gol de Dinei no ano passado. Praticamente há
vinte anos. O Vitória ainda lutava e muito pela auto-afirmação
entre os melhores clubes do país e naquela ocasião enfrentava o
rubro-negro de Zico (maior jogador que vi em campo até hoje),
que se preparava para encerrar a carreira, mas que ainda
mostrava um futebol digno de admiração.
Pra ser sincero com vocês, eu sou
um cara extremamente medroso no que diz respeito ao nosso time
em ação. Naquela época era pior. Se o Vitória enfrentasse
equipes favoritas ao resultado, ainda mais fora de casa, eu
simplesmente não assistia a partida. Ficava no quarto em pé,
andando pra lá e pra cá, tentando me distrair com algo, mas não
ia pra frente da TV. No máximo ficava ligando e desligando o
rádio.
Aliás, até hoje eu ainda guardo um
pouco disso. Em jogos nos domínios adversários e que temos a
oportunidade de acesso à transmissão, sempre que posso, vou
pegar uma cerveja, me dirijo ao banheiro ou crio algo que me
tire daquela angústia temporariamente (na disputa da vaga da
Copa Sul-Americana nos pênaltis, contra o Coritiba, no Couto
Pereira, fui tomar banho!). Até no Barradas eu evito testemunhar
um lance perigoso à nossa meta (contra o ASA, pela Copa do
Brasil, eu só esticava o pescoço pra olhar as nossas cobranças
de pênaltis. As “deles” eu zanzava para qualquer canto ou me
dirigia para os bares e pro “Point do Pastel”!). Olho para o
chão, para a torcida, mas o problema é que lá sempre tem um
miserável pra me cutucar pelo braço gritando “Olha a zorra lá!”.
Aí não dá pra ser feliz!
Nesse dia eu preferi ia à praia
que praticamente ficava de frente pro nosso portão. Mesmo assim
não tinha como não voltar às atenções para o nosso QG, porque
nesse momento encontravam-se diante da televisão, meu pai,
Francisco Ribeiro e Julinho, o caseiro da gente. Volta e meia
tentava me interagir com meu outro irmão, Marcel Ribeiro e
Toniquinho (um tricolor que nem estava aí para o confronto), mas
quando menos percebia lá estava eu, com os olhos fixos para a
entrada de casa, no desejo de um deles sair de lá gritando algo
ao nosso favor, mesmo que fosse pra dizer que o jogo tinha
terminado em 0X0!
O tempo corria e nada. Eu já
começava a imaginar pelo pior. “A gente deve tá tomando uma
goleada da zorra!”, pensava quase que alto. Foi aí que as
“portas da esperança” se escancararam e Francisco Ribeiro
desembestado gritou: “Gol do Vitóriaaaaaa p...!”.
Nesse momento eu e Marcel
corremos. Quase caí de tamanho desespero. A praia era tão
próxima que quando chegamos ainda pegamos o replay: Blitz do
Flamengo na nossa área. Nosso xerifão, o uruguaio Dorotéo Silva
espana e a bola cai no meio campo, nos pés de Hélio Caipira, que
num momento de esperteza deixa os zagueiros pra trás, dribla o
arqueiro Cantarelle e toca para o gol vazio! Silêncio no
Maracanã! Vitória 1X0!
A partir desse momento eu perdi o
medo e acompanhei o jogo até o final. Confesso a vocês amigos,
não foi nada fácil. O Flamengo impôs uma pressão terrível. O
galinho Zico comandava os ataques cariocas com maestria e
cobrava faltas que pareciam terem sido jogadas com a mão,
tamanha a precisão. Só que do nosso lado tinha o goleiraço
Robinson que naquele dia pegou até pensamento, para desespero da
cariocada e principalmente dos “paraíbas” que não acreditavam no
que estava acontecendo. O tempo foi passando, o empate do
Flamengo não vinha, até que o juiz deu o jogo por encerrado.
Leão 1X0 Urubu.
Vibramos como nunca e fizemos a
festa nas ruas de Matarandiba. Até Toniquinho que era tricolor
(mas não era muito de acompanhar seu time), foi na carona da
nossa zoada. Sabíamos o quanto era difícil naquela época,
conseguirmos um resultado daquele porte. Aquele placar
significou o fim das chances dos cariocas se classificarem à
próxima fase e ao mesmo tempo nossa sobrevivência na elite do
futebol brasileiro. Hoje, o Rubro-Negro baiano já é muito mais
respeitado por tudo que já conquistou nesses últimos vinte anos
e o que era considerado como heróico, tempos atrás, se tornou
normalíssimo nas décadas seguintes.
Saudações rubro-negras!
Renato dos
Anjos Ribeiro
Rubro-negro e
fisioterapeuta.
E-mail:
tinhojhow@yahoo.com.br
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