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Revista Eletrônica BOL - Edição nº 94 - 1 a 7 de novembro de 2009

Foto: Jornal dos Sports

:: Artigos ::

Alegria em Matarandiba! 

Renato Ribeiro

Caros rubro-negros, 

no final da década de 80, meu pai comprou uma casa de veraneio em Matarandiba, vizinha a Jiribatuba, uma das últimas “ilhas” a partir de Bom Despacho. Foi uma época bacana, por lá fizemos muitos amigos e inúmeros foram os momentos inesquecíveis. Contávamos os dias para que os feriados ou recesso escolar chegassem logo e pudéssemos curtir a praia e a galera por lá. 

E tem uma experiência que envolveu o Leão em Matarandiba que jamais saiu da minha memória, mesmo após anos de meu pai ter vendido o imóvel. Refere-se justamente a última vez que tínhamos vencido o Flamengo no Rio de Janeiro (partida também válida pelo brasileiro/ série A), antes daquele belo triunfo com gol de Dinei no ano passado. Praticamente há vinte anos. O Vitória ainda lutava e muito pela auto-afirmação entre os melhores clubes do país e naquela ocasião enfrentava o rubro-negro de Zico (maior jogador que vi em campo até hoje), que se preparava para encerrar a carreira, mas que ainda mostrava um futebol digno de admiração. 

Pra ser sincero com vocês, eu sou um cara extremamente medroso no que diz respeito ao nosso time em ação. Naquela época era pior. Se o Vitória enfrentasse equipes favoritas ao resultado, ainda mais fora de casa, eu simplesmente não assistia a partida. Ficava no quarto em pé, andando pra lá e pra cá, tentando me distrair com algo, mas não ia pra frente da TV. No máximo ficava ligando e desligando o rádio.  

Aliás, até hoje eu ainda guardo um pouco disso. Em jogos nos domínios adversários e que temos a oportunidade de acesso à transmissão, sempre que posso, vou pegar uma cerveja, me dirijo ao banheiro ou crio algo que me tire daquela angústia temporariamente (na disputa da vaga da Copa Sul-Americana nos pênaltis, contra o Coritiba, no Couto Pereira, fui tomar banho!). Até no Barradas eu evito testemunhar um lance perigoso à nossa meta (contra o ASA, pela Copa do Brasil, eu só esticava o pescoço pra olhar as nossas cobranças de pênaltis. As “deles” eu zanzava para qualquer canto ou me dirigia para os bares e pro “Point do Pastel”!). Olho para o chão, para a torcida, mas o problema é que lá sempre tem um miserável pra me cutucar pelo braço gritando “Olha a zorra lá!”. Aí não dá pra ser feliz! 

Nesse dia eu preferi ia à praia que praticamente ficava de frente pro nosso portão. Mesmo assim não tinha como não voltar às atenções para o nosso QG, porque nesse momento encontravam-se diante da televisão, meu pai, Francisco Ribeiro e Julinho, o caseiro da gente. Volta e meia tentava me interagir com meu outro irmão, Marcel Ribeiro e Toniquinho (um tricolor que nem estava aí para o confronto), mas quando menos percebia lá estava eu, com os olhos fixos para a entrada de casa, no desejo de um deles sair de lá gritando algo ao nosso favor, mesmo que fosse pra dizer que o jogo tinha terminado em 0X0! 

O tempo corria e nada. Eu já começava a imaginar pelo pior. “A gente deve tá tomando uma goleada da zorra!”, pensava quase que alto. Foi aí que as “portas da esperança” se escancararam e Francisco Ribeiro desembestado gritou: “Gol do Vitóriaaaaaa p...!”. 

Nesse momento eu e Marcel corremos. Quase caí de tamanho desespero. A praia era tão próxima que quando chegamos ainda pegamos o replay: Blitz do Flamengo na nossa área. Nosso xerifão, o uruguaio Dorotéo Silva espana e a bola cai no meio campo, nos pés de Hélio Caipira, que num momento de esperteza deixa os zagueiros pra trás, dribla o arqueiro Cantarelle e toca para o gol vazio! Silêncio no Maracanã! Vitória 1X0! 

A partir desse momento eu perdi o medo e acompanhei o jogo até o final. Confesso a vocês amigos, não foi nada fácil. O Flamengo impôs uma pressão terrível. O galinho Zico comandava os ataques cariocas com maestria e cobrava faltas que pareciam terem sido jogadas com a mão, tamanha a precisão. Só que do nosso lado tinha o goleiraço Robinson que naquele dia pegou até pensamento, para desespero da cariocada e principalmente dos “paraíbas” que não acreditavam no que estava acontecendo. O tempo foi passando, o empate do Flamengo não vinha, até que o juiz deu o jogo por encerrado. Leão 1X0 Urubu. 

Vibramos como nunca e fizemos a festa nas ruas de Matarandiba. Até Toniquinho que era tricolor (mas não era muito de acompanhar seu time), foi na carona da nossa zoada. Sabíamos o quanto era difícil naquela época, conseguirmos um resultado daquele porte. Aquele placar significou o fim das chances dos cariocas se classificarem à próxima fase e ao mesmo tempo nossa sobrevivência na elite do futebol brasileiro. Hoje, o Rubro-Negro baiano já é muito mais respeitado por tudo que já conquistou nesses últimos vinte anos e o que era considerado como heróico, tempos atrás, se tornou normalíssimo nas décadas seguintes.

Saudações rubro-negras!

Renato dos Anjos Ribeiro

Rubro-negro e fisioterapeuta.

E-mail: tinhojhow@yahoo.com.br

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