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Revista Eletrônica Barradão On Line é um veículo independente, com
edições publicadas semanalmente, sobre o Esporte Clube Vitória -
Salvador - Bahia - Brasil
Revista
Eletrônica BOL - Edição nº 86 - 6 a 12 de setembro de 2009
Foto:
Eduardo Martins | A TARDE
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Artigos ::
Vitória
X Cruzeiro (empate vitorioso)
Ricardo
Cury
Chuva
da porra, horário de filha da puta, time sem emplacar, amigo
desistindo de ir, mulher insistindo pra não ir... mas eu fui.
Às 18 em ponto parei meu carro no estacionamento e fiquei
esperando o temporal passar. Deu 18:15 e a chuva só aumentou. O
rádio dizia que o campo estava encharcado. “Se a chuva não
passar, vou voltar pra casa”, pensei. Deu 18:20, a chuva não
passou e a rádio entrevistou um torcedor de dentro do estádio:
– E aí, muita chuva, né? – perguntou o repórter. –
Rapaz, muita chuva, mas eu queria pedir ao torcedor do Vitória
que estiver me ouvindo agora, que ele venha pro jogo, que
enfrente a chuva, porque saiba que o Vitória tá nessa
situação porque ele joga na primeira divisão do campeonato
brasileiro, então só tem jogo difícil e tem que ser assim,
porque a coisa é na raça, pois pra tá aqui é pra jogar com
os melhores, com Internacional, com Flamengo, com Cruzeiro,
Palmeiras, Corinthians... então, torcedor, você que tá me
ouvindo, venha... – o repórter ficou mudo e eu abri a porta
do carro.
Coloquei
a filmadora debaixo do meu eficiente casaco de chuva e fiquei na
fila do nada eficiente Sou Mais Vitória. O estádio bem mais
vazio que o habitual e ainda assim tinha fila. Entrei no
estádio e a chuva, suavemente, passou.
Mesmo
entrando com o jogo já em andamento, fui ao banheiro. Não
consigo ver o jogo com vontade de mijar. Mijei, sentei e gol do
Cruzeiro. Três minutos de jogo. No lamaçal, jogadores
escorregando, drible doido surtindo efeito, um maluco chutou,
Viáfara fez seu milagre nosso de cada jogo, a defesa fez sua
merda nossa de cada jogo, a bola sobrou pra outro maluco que,
livre, quase não precisou chutar, pois a bola bateu nele e foi
entrando. Um a zero Cruzeiro. A nação rubro-negra não se
intimidou e deu apoio aos seus soldados: – É primeira
divisão, porra, é isso mesmo, vamo virar essa porra – gritou
o cara do meu lado. Quando ele se sentou, perguntei: – E aí,
man, beleza... Por acaso foi você quem deu uma entrevista no
rádio agora a pouco? – Não, porquê? – Nada não...
E
o Vitória partiu pra cima. Nino Paraíba teve a difícil
missão de substituir um ídolo em um jogo difícil e se saiu
muito bem. Rápido como Apodi, deu canseira na boa defesa do
Cruzeiro. O Vitória foi com tudo: pelo meio, pelo lado
esquerdo, pelo lado direito, de falta, de escanteio, de cabeça,
de gol impedido, com Ramon, Leandro, Roger, Neto Berola (que
acredito que vai ser o nome do Vitória nessa fase da
competição), mas a bola não entrava. – Esse Roger é uma
merda. Que porra... Ele come quem nessa direção? Só pode
comer alguém? – desabafou um abafado, impaciente com os
constantes gols perdidos de Roger.
Fim
do primeiro tempo. Um a zero pro Cruzeiro. Pensei como seria o
dia seguinte, a segunda-feira, com meus amigos do trabalho
felizes com o Bahia. Quando o Bahia perdeu o CampeoNeto Baiano
(pela oitava vez seguida), eles fingiram desprezo; aí a merda
ganha um joguinho na segunda divisão e eles fazem carreata.
Imaginei como seria o dia seguinte se aquele placar de um a zero
persistisse.
Começou
o segundo tempo e o Vitória continuou melhor em campo. Mas foi
o Cruzeiro quem fez o segundo gol. Pênalti, gol e dois a zero.
“Dá pra empatar”, pensei com fé e quando vi a bola cruzar
na área, bem na minha frente,
vi que ela ia pra cabeça de Roger.
Lembrei
do gol contra o Flamengo no Engenhão nesse ano e pensei “esse
ele vai fazer” e fez. Dois a um, três minutos depois do dois
a zero. Faltavam ainda 25 minutos de jogo. “Dá pra empatar”,
pensei de novo. E até virar...
O
Vitória continuou indo pra cima e o Cruzeiro só tentando os
contra-ataques. O Cruzeiro chegou três vezes ao ataque e fez
gol em todos. Aos 31, três a um. Foi um banho de água fria,
principalmente pelo fato da chuva ter voltado com tudo logo
depois desse gol.
Faltavam
14 minutos. Era o mesmo placar pelo qual o Bahia ganhara no dia
anterior, também contra um time azul e branco. Pensei até em
faltar o trabalho. Se o jogo fosse fora de casa, vá lá... Mas
no Barradão é foda.
Aos
38 minutos, a chuva, que passou o jogo todo quieta, anunciava o
final melancólico. Faltavam apenas sete minutos e dois gols
para pelo menos manter a dignidade. Com a chuva que caía, eu
não poderia mais filmar nada para não molhar a máquina e
achei melhor ir embora. Desanimado, subi as escadas em direção
à saída. Uns dez passos depois que saí do estádio, ouvi o
“grande grito” vindo de dentro: GOOOLLLLLL. Primeira vez que
eu ouvia um gol de fora do Barradão. Até foi emocionante, mas
perguntei o tempo a um torcedor que ouvia pelo rádio, ele
respondeu “41”. Um outro que nos ouvia, gritou, revoltado:
– E isso é hora de fazer gol? Perde vinte gols durante o jogo
e só faz um gol agora? Que porra!
A
chuva engrossou ainda mais, fui andando sozinho em direção ao
meu carro, pulando as lamas, cruzando os carros engarrafados e
meditando “bora, Vitória, faz mais um gol, só mais um, só
mais um, só mais um...”.
Os
gritos foram chegando aos poucos, em ondas, até que me dei
conta de que só podia ter sido o terceiro gol do Vitória. E
era. O buzinaço começou e um cara de uma camionete abriu o
vidro só pra me dizer “gol de Roger, gol de Roger”,
enquanto a chuva encharcava o interior de seu carro. Gol não:
golaço. Desconfio seriamente que pedi tanto “só mais um”
que foi por isso que o Vitória não virou o jogo. Se Roger faz
aquele quarto gol... Mas foi um três a três com gosto de
vitória, com perdão do trocadilho. Primeira divisão é assim.
Jogo de gente grande. E time grande.