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Revista Eletrônica BOL - Edição nº 84 - 23 a 29 de agosto de 2009

Foto: Felipe Oliveira | E. C. Vitória

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Vitória x Coritiba (Sulamericana)

Ricardo Cury

Jogo às 19:15 de uma quinta-feira é sacanagem, mas era também a estréia do Vitória em uma competição internacional. Consegui sair às 18:50 do trabalho e só entrei no Barradão aos 25 do primeiro tempo.

Aproveitando que já estava atrasado, aproveitei o fraco movimento no stand do “Sou Mais Vitória” e finalmente peguei minha carteira. A camisa oficial, garantiu a funcionária, chegaria, sem falta, em setembro. Fiz a carteira em fevereiro.

Procurando lugar, percebi que o Vitória começou mal o jogo. Em uma tentativa frustrada de contra-ataque, os torcedores perderam a paciência:

– Que é que tá acontecendo com esse Vitória hoje? – gritou um bigodudo.

– Que porra é essa, Vitória? – gritou um careca, amigo do bigodudo.

Sentei atrás de um grupo que não parava de falar. Sentei de propósito para ouvir a conversa. Estádio vazio é bom pra isso.

– Vitória tá mal, é? – perguntei.

– Mal? Se tivesse mal tava bom. O Vitória tá um cu...

Outro fator bom do estádio vazio foi que, em uma bola no meio campo, Willian dominou sem perceber que tinha um marcador do Coritiba atrás dele. A torcida junta gritou “LADRÃO”. Willian na hora tocou a bola.

Em outro lance, Apodi estava marcando perto da arquibancada e conseguiu desarmar a jogada, botando a bola pra fora. O careca gritou:

– Boa, Apodi, seu lugar é aí, porra...

Apodi, na hora, olhou na direção da gente.

“Porra, ele ouviu, ele ouviu...”, disseram vários ao mesmo tempo.

O Vitória criou algumas jogadas no final do primeiro tempo. Roger perdeu um gol debaixo da trave e os torcedores, como em todos os temas sobre futebol, não se entendem:

– Ele é muito lento – disse o bigodudo.

Um gordinho defendeu:

– Rapaz, o cara é bom, não é à toa que ele fez nove gols. Isso aqui é primeira divisão, fazer nove gols na primeira divisão não é pra qualquer um...

– Fez nove mas perdeu noventa...

Apodi também tentou chutando de fora, mas o goleiro espalmou e o primeiro tempo terminou zero a zero.

Pro segundo tempo, fui filmar perto do gol do ataque do Vitória. Colado no alambrado estavam dezenas de crianças. Aquelas criaturas inocentes e engraçadas infernizavam Eduardo, o goleiro do Coritiba, que se aquecia pro segundo tempo. “Vai tomar frango”, “Viado” e “Cabeça de rola” era o que o pobre rapaz mais ouvia.

E no primeiro minuto, ele tomou um. Não foi um frango, mas foi gol. Um a zero Vitória.

Veja o vídeo aqui:


Um cara me viu filmado, se aproximou e começou a falar:

– Rapaz, eu acho que tem que colocar Bida no lugar de Willian e Neto Berola no lugar de Jackson. Tô falando isso porque o torcedor não é burro. Eu jogo bola, você joga bola... A gente entende, né não?

Willian entrou pela esquerda e chutou forte. O goleiro defendeu. Em outro contra-ataque, Jackson chegou atrasado.

O cara ficou pirado:

– Que burrice da porra, viu Ricardo? – disse, gritando para Ricardo Silva, o técnico do Vitória nessa partida. Ele continuou: – Deixar de botar um cara de 20 anos pra colocar um de 40 é foda. Não tá vendo que o ataque tá sem velocidade?

Em outro momento, Gléguer falhou e, mesmo tendo sido o herói do último jogo, o torcedor me faz crer que se Cristo voltasse, que ele seria novamente crucificado:

– Esse Gléguer nunca me passou confiança – vociferava ele, virando pra mim, dizendo: – Esse time vai ter que melhorar. Dando 160 mil reais por mês pra Mancini, esse time vai ter que melhorar...

A torcida toda estava impaciente com Jackson. Ele perdia uma bola e a torcida pedia sua saída. E isso de pegar no pé de Jackson não foi a primeira vez que aconteceu no Barradão, assim como não foi a primeira vez que aconteceu de, justamente nesse momento, Jackson fazer um gol: uma arrancada digna de um garoto que terminou com a bola no canto esquerdo do gol, mostrando pra torcida que o que importa no futebol é a raça. Dois a zero, um bom placar para o jogo de volta.

Depois Jackson ainda quase fez outro, chutando de longe no canto direito, fazendo Eduardo se esticar todo.

Na subida das escadas, ido embora, muitos diziam:

– O velhinho é foda... Eu te falei, o velhinho tem que ser titular...

Ricardo Cury

Autor do livro "Para Colorir", escreve o blog Eu Tava Aqui Pensando ou Blá Blá Blá. Publicado simultaneamente com o blog parceiro Vitória no Barradão

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