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Lar
doce lar
Fernando
Sant'Anna
Existem
coisas que nunca esquecemos! Não importa quanto tempo você
fique sem vê-las, praticá-las ou escutá-las. São
recordações que nossa mente não consegue apagar. Andar de
bicicleta é uma delas, o caminho de casa é uma outra. E a
propósito, como é bom voltarmos pra casa.
Morei
por toda infância e juventude em Salvador. E hoje moro em
Caruaru, a segunda cidade mais importante do Pernambuco. Sempre
que possível vou a Salvador. Geralmente, esse "sempre que
possível" é somente no período das férias. Mas esse ano
foi diferente.
Uma
reunião de trabalho aconteceria em Salvador e teria o “desprazer”
de ter que ficar em Salvador por uma semana. Na realidade, a
reunião somente começaria numa terça-feira. Porém, no
domingo, o Vitória jogaria em casa contra o time do Santos e ir
ao Barradão era uma das melhores experiências da minha vida.
Uma lembrança que eu gostaria de manter viva na memória.
Lembrança? Não! De maneira alguma. Ir ao Barradão não
poderia continuar sendo apenas uma lembrança, tinha que voltar
a ser uma realidade.
Mas
para viver esse momento novamente um longo caminho devia ser
percorrido. E bota longo nisso. A começar, a distância que
separa Caruaru de Salvador, 750 km. E menos de 24 horas pra o
jogo. Já que o “tempo ruge e a Sapucaí é grande”, então
“pernas pra que te quero”, ou melhor, “acelerador pra que
te quero”.
Chuva,
neblina e quase 10 horas depois eu estava chegando em Salvador.
Estava de volta a minha terra, de volta no meu lar. Perdoe-me
ser repetitivo, mas já perceberam como é bom voltar ao lar?
Você pode viajar ao melhor lugar do mundo, dormir nas melhores
camas, mas nada se compara a nossa casa.
Depois
de uma boa e longa noite de sono, acordei ansioso perto do meio
dia. Almocei e fui à casa de meus bons e velhos amigos da
família Ribeiro. Pra minha surpresa, seu Renato não estava
bêbado, mas continuava com as mesmas conversas: “Abelhão,
falei pro seu pai do texto
que você escreveu pro BOL e que agora você era
Vitória...”
Assistimos
ao primeiro tempo do jogo do Corinthians e, antes mesmo do fim
do primeiro tempo, saímos em direção ao Barradão, apenas eu
e Fanque. Tinho, havia combinado ir também, mas como não
conseguimos contato acabamos saindo sem ele.
Ansiedade
de menino
Quando
entramos na avenida Paralela, meu coração começou a vibrar.
Algumas horas atrás eu havia entrado nessa avenida quando
cheguei em Salvador, mas o coração não havia tido qualquer
reação. Mas agora era diferente. Uma carga de adrenalina
corria em minhas veias. Parecia que era a primeira vez que ia ao
estádio do Vitória. Fizemos o retorno e entramos na Faculdade
Jorge Amado.
A
cada metro percorrido, flashes de memória passavam em minha
mente. Cada canto daquele trajeto estava vivo em minhas
recordações. Embora muitas construções tenham surgido, o
caminho que conduzi ao Barradão ainda era o mesmo. Mas minha
ansiedade, fazia com que me portasse como um menino. A cada
curva, a cada reta eu perguntava pra Fanque: “estamos perto?”,
“Paro o carro no mesmo estacionamento?”, “Compro o
ingresso com o cambista?”.
Não
muito depois, ali estava eu na porta de entrada do Manoel
Barradas. Por um instante eu parei. Queria olhar com muita calma
pra cada detalhe daquele lugar. Fanque começou a me falar das
mudanças que entraram em vigor. Fazia 5 anos que não ia ao
Barradão. Eu estava fascinado!
Sentamos
atrás do gol, junto da torcida Os Imbatíveis. Como é bom
torcer com milhares de pessoas. Como é bom reviver velhas
recordações. Vitória em campo, 1x0. Tinho aparece.Com menos
de 5 minutos de jogo eu já estava sem voz, como nos velhos
tempos. A cada gol, cada lance perigoso, a cada instante do jogo
eu vibrava como se aquela fosse a primeira vez no estádio e
vivia intensamente como se fosse o último.
Impossível
descrever em palavras, o misto de sentimentos que aconteceram
naquele dia, ao longo dos 90 minutos e todo os outros que
envolveram aquela partida.
Naquele
dia o Santos descobriu que não há coisa melhor do que voltar
pra casa, já que a visita à casa do Vitória foi difícil de
engolir. E eu? Eu descobri que meu verdadeiro lar não é
Salvador, ou um apartamento no Parque Julio Cesar, mas um
pedacinho de terra, num bairro chamado Canabrava. Que alguns
chama de Barradão, mas eu chamo de lar, doce lar.
Fernando
Sant’Anna
Teólogo
e rubro-negro
E-mail:
fasantanna@hotmail.com
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