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Revista Eletrônica BOL - Edição nº 82 - 9 a 15 de agosto de 2009

Foto: Felipe Oliveira | E. C. Vitória

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Lar doce lar

Fernando Sant'Anna

Existem coisas que nunca esquecemos! Não importa quanto tempo você fique sem vê-las, praticá-las ou escutá-las. São recordações que nossa mente não consegue apagar. Andar de bicicleta é uma delas, o caminho de casa é uma outra. E a propósito, como é bom voltarmos pra casa.

Morei por toda infância e juventude em Salvador. E hoje moro em Caruaru, a segunda cidade mais importante do Pernambuco. Sempre que possível vou a Salvador. Geralmente, esse "sempre que possível" é somente no período das férias. Mas esse ano foi diferente.

Uma reunião de trabalho aconteceria em Salvador e teria o “desprazer” de ter que ficar em Salvador por uma semana. Na realidade, a reunião somente começaria numa terça-feira. Porém, no domingo, o Vitória jogaria em casa contra o time do Santos e ir ao Barradão era uma das melhores experiências da minha vida. Uma lembrança que eu gostaria de manter viva na memória. Lembrança? Não! De maneira alguma. Ir ao Barradão não poderia continuar sendo apenas uma lembrança, tinha que voltar a ser uma realidade.

Mas para viver esse momento novamente um longo caminho devia ser percorrido. E bota longo nisso. A começar, a distância que separa Caruaru de Salvador, 750 km. E menos de 24 horas pra o jogo. Já que o “tempo ruge e a Sapucaí é grande”, então “pernas pra que te quero”, ou melhor, “acelerador pra que te quero”.

Chuva, neblina e quase 10 horas depois eu estava chegando em Salvador. Estava de volta a minha terra, de volta no meu lar. Perdoe-me ser repetitivo, mas já perceberam como é bom voltar ao lar? Você pode viajar ao melhor lugar do mundo, dormir nas melhores camas, mas nada se compara a nossa casa.

Depois de uma boa e longa noite de sono, acordei ansioso perto do meio dia. Almocei e fui à casa de meus bons e velhos amigos da família Ribeiro. Pra minha surpresa, seu Renato não estava bêbado, mas continuava com as mesmas conversas: “Abelhão, falei pro seu pai do texto que você escreveu pro BOL e que agora você era Vitória...”

Assistimos ao primeiro tempo do jogo do Corinthians e, antes mesmo do fim do primeiro tempo, saímos em direção ao Barradão, apenas eu e Fanque. Tinho, havia combinado ir também, mas como não conseguimos contato acabamos saindo sem ele.

Ansiedade de menino

Quando entramos na avenida Paralela, meu coração começou a vibrar. Algumas horas atrás eu havia entrado nessa avenida quando cheguei em Salvador, mas o coração não havia tido qualquer reação. Mas agora era diferente. Uma carga de adrenalina corria em minhas veias. Parecia que era a primeira vez que ia ao estádio do Vitória. Fizemos o retorno e entramos na Faculdade Jorge Amado.

A cada metro percorrido, flashes de memória passavam em minha mente. Cada canto daquele trajeto estava vivo em minhas recordações. Embora muitas construções tenham surgido, o caminho que conduzi ao Barradão ainda era o mesmo. Mas minha ansiedade, fazia com que me portasse como um menino. A cada curva, a cada reta eu perguntava pra Fanque: “estamos perto?”, “Paro o carro no mesmo estacionamento?”, “Compro o ingresso com o cambista?”.

Não muito depois, ali estava eu na porta de entrada do Manoel Barradas. Por um instante eu parei. Queria olhar com muita calma pra cada detalhe daquele lugar. Fanque começou a me falar das mudanças que entraram em vigor. Fazia 5 anos que não ia ao Barradão. Eu estava fascinado!

Sentamos atrás do gol, junto da torcida Os Imbatíveis. Como é bom torcer com milhares de pessoas. Como é bom reviver velhas recordações. Vitória em campo, 1x0. Tinho aparece.Com menos de 5 minutos de jogo eu já estava sem voz, como nos velhos tempos. A cada gol, cada lance perigoso, a cada instante do jogo eu vibrava como se aquela fosse a primeira vez no estádio e vivia intensamente como se fosse o último.

Impossível descrever em palavras, o misto de sentimentos que aconteceram naquele dia, ao longo dos 90 minutos e todo os outros que envolveram aquela partida.

Naquele dia o Santos descobriu que não há coisa melhor do que voltar pra casa, já que a visita à casa do Vitória foi difícil de engolir. E eu? Eu descobri que meu verdadeiro lar não é Salvador, ou um apartamento no Parque Julio Cesar, mas um pedacinho de terra, num bairro chamado Canabrava. Que alguns chama de Barradão, mas eu chamo de lar, doce lar.

Fernando Sant’Anna

Teólogo e rubro-negro

E-mail: fasantanna@hotmail.com 

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