Domingo de manhã fui pra praia. No caminho, avistei inúmeros transeuntes com camisa do Bahia. Ganharam um jogo no dia anterior, foram pra décima primeira colocação do campeonato da segunda divisão e fizeram carreata com buzinaço. No dia seguinte saíram às ruas orgulhosos do incrível feito. A manchete do jornal Correio estampava “Tricolor voltou”.
Ontem o tricolor voltou ao
normal e empatou com o Juventude, dentro de Pituaçu, depois
de abrir dois a zero. A manchete do Correio foi “Tricolor dá
mole”.
Um amigo meu torcedor do Vitória disse que ia dar um pacote
de meia pro Bahia.
- Tenho vários pares lá em casa.
Ele disse que ouviu a resenha
do jogo e que a reclamação chorosa era “o Bahia não tem
meia, o Bahia não tem meia...”.
Já na praia, avistei um grupo jogando bola, fazendo salão.
Um deles estava com a camisa do Vitória. Fui dar um mergulho
e ao passar por ele, perguntei:
– E esse Vitória hoje?
– Vai brocar – respondeu.
Minha irmã nunca foi a um estádio e momentos antes de sair
de casa, ela me ligou dizendo que iria também. “Vai dar
sorte”, pensei, espantando pra longe a chance dela ser
pé-frio.
Era um jogo importante onde o Vitória precisava vencer por
dois motivos óbvios: era no Barradão e era a chance de
voltar ao G4.
Quando o time empatou com o Atlético MG, os torcedores do
Bahia começaram a dizer:
– Agora é ladeira abaixo.
– Depois perdeu pro Corinthians e eles disseram:
– Nunca mais vai voltar ao G4.
Interessante é que antes do campeonato começar, a urucubaca
era de que o Vitória ia cair. Agora a urucubaca é de que o
Vitória não fica entre os quatro. São uma espécie divertida
esses torcedores do Bahia.
O jogo começou com os olhos em Roger. Na verdade, começou
com os olhos em Gléguer, o goleiro reserva que substituía,
de última hora, o milagroso Viáfara, pegando a torcida de
surpresa.
Roger é o artilheiro do time, fez oito gols, mas perdeu 80.
Nesses dois jogos citados acima, o Vitória só não somou
quatro pontos por causa dele. O time tem criado, tem jogado
bem, o coloca na cara do gol, mas ele perde.
– Essa disgraça não joga nada. Desde o início do campeonato que tô dizendo isso... – dizia um revoltado senhor do meu lado.
Uns defendiam o jogador com “o cara é bom, o cara é bom, não fez oito gols à toa...”.
– Oito gols de cagada, com a
bola batendo nele e entrando – gritava o revoltado.
Itacaré é o nome mais falado nessas discussões. A torcida
quer que ele entre logo, dizendo que ele está com fome de
bola e que jamais perderia os gols que Roger vem perdendo.
Primeiro tempo acabou 0 x 0. Com Roger e o Vitória perdendo
alguns gols feitos.
– Aí tem que ser jogada de baba, porra; tem que ser jogada
de baba – disse o tal senhor, depois de um dos inúmeros gols
perdidos. – Dá um-dois, dá um dois... – dizia ele, falando
da famosa tabelinha rápida na entrada da área.
– Brincadeira uma porra dessa,
viu? – disse outro.
Apesar do zero a zero e do fantasma de outro empate no
Barradão, a torcida aplaudiu o time que saía de campo,
reconhecendo o esforço em buscar o gol. O Vitória não está
no G4 à toa.
O Vitória veio pro segundo tempo ainda melhor do que no
final do primeiro, quando foi mais objetivo. Queria o gol.
Bida, que acabara de entrar, quase fez o dele logo no
início. O gol iria sair. Tinha de sair. O Barueri estava
perdendo e um gol colocaria o Vitória na terceira colocação.
E num passe magistral, sublime e poético de Bida, Leandro
Domingues matou no peito e mostrou a Roger como é que faz.
Chutaço, golaço, um a zero, minha porra.
Filmei o gol. Pelo menos foi o que achei na hora. Só em
casa, editando, que percebi que não filmei. Dessa vez foi eu
quem perdi o gol.
Por causa disso, inicialmente, achei que não valia a pena
fazer o vídeo. Sem o gol não teria graça, mas depois mudei de
idéia. Trabalhar com o que tem é o que deve ser feito. Carpegiani tá fazendo assim e tá no caminho certo.
Menção honrosa para minha irmã, que estreou com pé quente e para ótima atuação do goleiro Gléguer, que estreou da mesma maneira.
O lance agora é G3.



