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Revista Eletrônica BOL - Edição nº 81 - 2 a 8 de agosto de 2009

Fonte: Jornal Bahia Hoje

:: Artigos ::

Vale a pena ler de novo II

Renato Ribeiro

Caros rubro negros,

Continuando a saga em resgatar inesquecíveis momentos do Leão, registrados no formato antigo do BOL, repasso para vocês um texto meu que fez parte da coluna “O jogo da minha vida”. Por ali passaram grandes rubro-negros que deixaram transpor suas emoções em relatos de batalhas que ficaram na história do Esporte Clube Vitória. 

Na época, quando resolvi escrever o texto (estava novamente morando no interior, dessa vez já como profissional de saúde) referente a alguma partida que jamais sairia da minha memória, tive muitas dúvidas, mas acabei optando por Flamengo x Vitória, válida pelo quadrangular do Brasileirão/93, que definiria qual seria o adversário do poderoso Palmeiras/Parmalat nas finais daquele campeonato (a chave do Palmeiras era completada por São Paulo, Guarani e Remo, enquanto que o Vitória tinha a companhia de Corinthians, Santos e Flamengo). 

Lembro que, em virtude de meu pai ter sido transferido do trabalho para Vitória da Conquista, praticamente acompanhamos a bela campanha do Leão de longe e ao mesmo tempo tínhamos que lutar dentro do próprio território baiano contra a maioria esmagadora de torcedores de outros clubes do país, tamanha a preferência dos irmãos interioranos pelas agremiações do Sul. 

Mas contra tudo e contra todos, o Vitória foi chegando. Inclusive, foi o único time a bater o favoritíssimo Corinthians de Mário Sérgio em uma partida memorável do rubro-negro em plena Fonte Nova, quando vencemos por 2x1 com direito a gol de placa de Alex Alves (se não me engano, essa experiência foi relembrada pelo grande rubro-negro Ayrton Ferreira também no “O jogo da minha vida”). 

Enfim, era chegado o momento de carimbar o passaporte para a final e a partida reservada para tal privilégio era justamente contra o time de maior popularidade do país. Devido ao fato do clube carioca, assim como o Santos, não terem mais condições de classificação (a vaga era disputada somente por Vitória e Corinthians), o Maracanã recebeu um pequeno público (lembro da torcida baiana fazendo festa após o apito final do juiz!), mas, mesmo assim, o jogo não deixou de ser dramático. Tanto que os minutos finais acabaram por serem “assistidos” por mim, no banheiro! Isso mesmo! No banheiro! A seguir vocês descobrirão o porquê. 

Boa leitura e Saudações Rubro-Negras! 

Aquele time da gente era fantástico (*)

Renato dos Anjos Ribeiro

Na época morávamos em Vitória da Conquista e como todos sabem, tanto o Vitória como o nosso rival, somos inferiores em preferência no interior do estado. Eu chegava no colégio e aí via os colegas falando sobre quem ganharia o Brasileiro e sempre ouvia Flamengo, São Paulo, Vasco, enfim, times do sul. Porém, eu chegava e dizia: "meus amigos, esse ano vai dar Vitória" e sempre era motivo de riso e gozação. Mas, pra falar a verdade, eu falava aquilo muito mais por amor ao meu time do que por achar que o Vitória iria chegar. Sempre tive uma revolta quanto ao fato de ver os baianos "pagando pau" para sulistas, enquanto que tinha um grande clube como o Vitória no nosso estado em ascendência.

Mas, para desespero dos nossos conterrâneos, o Vitória foi chegando. Aquele time da gente era fantástico, pois unia na medida certa a experiência e a juventude. A prata da casa e jogadores de fora. E acabou entrando junto com Flamengo, Santos e Corinthians em uma chave. Isso mesmo. Junto com os dois maiores times de torcida no Brasil e o Santos que também dispõe de grande torcida e um passado glorioso. Era uma missão bem difícil.

Ganhamos do Flamengo de 1x0, empatamos com o Santos em 2x2 e 3x3 e vencemos e empatamos com o Corinthians por 2x1 e 2x2. E o jogo crucial veio contra o Flamengo no Maracanã. Se passássemos, estaríamos na final do Brasileiro. Veio o jogo, e o Vitória foi fantástico! Encarou de igual para igual. Alex Alves, Pichetti, Paulo Isidoro e o artilheiro Claudinho infernizavam a zaga do Flamengo e Dida garantia lá atrás. Ainda tinha Roberto Cavalo com a "patada mortal" que nos colocou na frente com um golaço de falta. Renato Gaúcho, aquele que disse que "a Bahia é terra de índio", empatou e aí começou o drama.

O relógio não passava e a cada lance do Flamengo era um martírio. Eu, meu pai, minha mãe e meus irmãos já estávamos de pé em frente da Tv. E por volta dos 42 minutos, o centro avante Magno, do Flamengo, recebeu a bola sozinho, dentro da área e na saída de Dida chutou rasteiro no canto e a bola saiu milagrosamente rente à trave. Com certeza, foi o Senhor do Bonfim que tirou aquela bola. A partir daí eu não queria ver mais o jogo. Fui pro banheiro e abri o registro da pia para o barulho da água não me fazer ouvir o jogo. Até falar qualquer coisa bem alto no banheiro eu falava. E o maldito relógio parecia que não saía dos 42 minutos. Foi aí que eu ouvi todos na casa gritando e saí do banheiro gritando e abraçando a todos. Minhas mãos, se fossem espremidas, encheriam uma garrafa litro. Por incrível que pareça, naquele momento, me senti em outro estado. Só nós ali nos abraçando, emocionados, mas nos sentíamos como heróis. Era o nosso Vitória contra tudo e contra todos.

Infelizmente, naquele ano não levamos o caneco. Perdemos para o Palmeiras/Parmalat a final. Mas perdemos de cabeça erguida. Mostramos ao Brasil e ao mundo o que era o Vitória. Hoje colhemos os frutos, onde somos referência de divisão de base para o mundo inteiro.

Hoje, novamente estou morando temporariamente no interior e nove anos depois. Espero que as coincidências ultrapassem o vice-campeonato de 1993. Sinto saudades dos amigos, da família e do Vitória. O meu Vitória. Outro dia estava sozinho em casa e coloquei o Cd do Centenário e confesso, me emocionei. É como se estivesse longe de um ente querido. Estava em Salvador no jogo contra o Paysandu. Como é bom ver o Vitória ganhando, fazendo gols. Gritei dobrado. Pelos gols e pela saudade. Freqüento estádios pelo Vitória desde os 4 anos. E tudo que é do Vitória é inesquecível pra mim. Fiéis somos nós, que já enfrentamos épocas difíceis e até hoje e para sempre seremos Vitória. Hoje tenho 26 anos e me emociono com o Vitória como se tivesse 12 anos. Ando aqui em Santana com as camisas do Vitória e fico feliz quando as pessoas param e olham. Dá uma sensação ímpar. Sabe aquela expressão, "coisas do Vitória?" Pois é. Comprei uma camisa dos Imbatíveis de segunda mão, mas e daí? Tudo que é do Vitória, mesmo sendo de segunda, é de primeira. Já o nosso rival, tudo que é de segunda, é de segunda mesmo! "Coisas do Vitória".

Ficha Técnica

Flamengo 1x1 Vitória

Local - Maracanã

Árbitro - Antônio Pereira (GO)

Renda - CR$ 1.571.500,00 com 1.507 pagantes

Gols - Roberto Cavalo, aos 18 e Renato Gaúcho, aos 41 minutos do primeiro tempo.

Cartão Vermelho - Marquinhos (Flamengo)

Flamengo - Gilmar, Charles (Jorge Antônio), Gelson, Rogério e Marcos Adriano; Fabinho, Marquinhos, Hugo e Sávio; Renato Gaúcho e Marcelinho (Magno). Técnico: Júnior.

Vitória - Dida, Rodrigo, China, Evandro e Éverton (Dourado); Gil Sergipano, Roberto Cavalo e Paulo Isidoro; Alex Alves (Vampeta), Claudinho e Pichetti. Técnico: Fito Neves.

(*) Publicado no portal BOL em 2002.

Renato dos Anjos Ribeiro

Rubro negro e fisioterapeuta.

E-mail: tinhojhow@yahoo.com.br

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