Por que, meu Deus, por que um simples jogo de futebol mexe tanto com as pessoas?
Por que gostamos de
humilhar nossos próprios amigos com palavras pesadas
pelo simples fato do time que eles torcem
ter perdido um jogo?
Um Ba x Vi é realmente algo inigualável. Já vi muitos.
Já sofri em alguns. Estava no de Raudinei. Estava também
no título que o Bahia ganhou no Barradão. 2 a 0. Dois
gols de Wesley. Não lembro o ano.
Em dia de Ba x Vi, a atmosfera da cidade muda. Um clima
de tensão se instala no ar. Nada importa, só o jogo. Só
a vitória. Não importa se seu time está na primeira
divisão e o outro na segunda. Não importa se tem oito
anos que o outro time não ganha um campeonato baiano...
tudo vai por água a baixo se seu time não ganhar aquele
jogo.
Assim como hoje, dia 03/05, dia do BAVI final de 2009, o
tempo daquele jogo de Wesley estava demasiadamente
chuvoso. Nessas horas a superstição sempre aparece:
“Porra, naquele jogo
estava chovendo, era no Barradão, o Bahia ganhou por 2 a
0, mesmo placar que tem que fazer hoje...”. Até torci
pro jogo ser cancelado.
Era meu primeiro jogo no campeonato baiano desse ano. Já
tinha ido pra Juventude e Atlético Mineiro pela Copa do
Brasil, mas não tive paciência em fazer resenhas desses
jogos pra esse blog. A única coisa que eu tive vontade
de falar desses jogos foi que comprei o Sou Mais Vitória
e gostaria de sugerir a direção do clube que mudasse o
nome do negócio pra Sou Mais Otário. Comprei pra
justamente não ter de pegar fila nem me preocupar com
compra de ingresso, porém, a fila dos associados é bem
maior do que a de quem vai na bilheteria e compra um
ingresso. Nos dois jogos perdi o começo do primeiro
tempo. Eu e centenas. Apenas duas catracas funcionando.
Lamentável. Se não consegue melhorar o serviço de algo
tão simples, inclusive já tendo recebido por ele, me
pergunto se consegue administrar um time na série A do
campeonato brasileiro.
Fui com meu pai. Faziam 5 anos que ele não ia aos
estádios. Nem Barradão nem Fonte Nova. Compramos o Sou
Mais Vitória já prevendo os jogos finais do Baiano, o
Brasileirão, a Copa do Brasil e a Sul-americana.
Chegamos cedo, pois sabia que teria filas enormes, o que
aborreceria meu pai. Infelizmente, em jogos no meio da
semana não dá pra chegar tão cedo. Às 15 horas, já
estávamos sentados.
A torcida do Bahia compareceu com uma “moquequinha de
gente ali no cantinho”. Tinham como grito de guerra o
“Ah, eu acredito”. Acreditavam no placar com dois gols
de diferença. O maior fato para esse acreditar era o
repetido “oxe, já dei 2 a 0 lá nesse ano, o Barradão é
meu parque de diversões”.
Tudo que o Vitória queria quase aconteceu. Apodi, ídolo
máximo (pelo menos pra mim), perdeu um gol incrível.
E tudo que o Bahia queria aconteceu. Em seguida a jogada de Apodi, ainda no início do jogo, gol do Bahia. 1 x 0. A moquequinha ficou ouriçada, berrando loucamente o “ah, eu acredito, ah, eu acredito”. A torcida do Vitória não se abalou. Continuou apoiando o time, pois sabia do tamanho da viabilidade de reverter a situação. O jogo ficou naquele reme-reme e tudo que a torcida do Vitória não queria aconteceu. Aos 47 do primeiro tempo, gol do Bahia. Golaço, por sinal. 2 x 0 e fim do primeiro tempo.
– Melhor 2 a 0 aos 47 do primeiro tempo do que aos 47 do segundo tempo – disse pra meu pai, com otimismo.
A moqueca foi à loucura: “Bahia, Bahia, Bahia”; “ah, eu acredito”; “sabe, eu sou Baêa...”; “ah, eu acredito”...
Foi o intervalo todo assim.
O pesadelo Wesley não saía de minha mente. A chuva não dava trégua, encharcando minha calça jeans, meu tênis e deixando a derrota ainda mais humilhante e dolorosa.
Trabalho numa sala com 10 pessoas. Sete são Bahia. Dois são Vitória (contando comigo) e um é do interior e torce pro Flamengo. Só imaginava como seria a segunda-feira.
“Não acredito que isso tá acontecendo, com toda a vantagem, com toda a campanha, com a descabaçada em Pituaçu, perder o campeonato por 2 a 0, no Barradão, pra um time de segunda...” foram os pensamentos que me fizeram respirar fundo por várias vezes durante o jogo. Não podia acreditar no que estava acontecendo.
“Ah, eu acredito”, berravam eles sem parar.
A chuva, além de degradar a moral, me obrigou a deixar a filmadora debaixo do casaco. Como choveu o tempo todo, não filmei quase nada do jogo. Mas de repente, a chuva cessou. A superstição então se acendeu. Sou baiano, ora bolas.
“A chuva parar assim é um sinal pra eu ligar a câmera, pois vai acontecer o gol do Vitória”, pensava eu.
Esse
vídeo responde se minha superstição deu certo.
2 x 1. Gol de Neto Baiano, artilheiro da competição. O
título voltava pras mãos do Vitória e passava longe,
pelo oitavo ano consecutivo, das mãos do Bahia. A
moqueca ficou calada. O Bahia veio descontrolado pra
cima enquanto o Vitória perdia gols sucessivamente nos
contra-ataques. A chuva voltou com tudo. Não filmei o
segundo gol do Vitória por causa dela. 2 x 2. Ramon.
Gostaria de agradecer ao Bahia pelos dois gols iniciais.
Deu mais sabor ao jogo. Temperou o título.
Também, por causa da chuva, não filmei o “créu, créu,
créu” que torcida e jogadores do Vitória fizeram no fim
do jogo. Também não deu pra filmar o “senta que é de
menta”, o grito de “tri-campeãããão” e o melhor de todos
os gritos: o grito de "ah, eu acredito", gritado agora
pela torcida do Vitória, enquanto os torcedores, digo,
sofredores do Bahia olhavam calados, sem acreditar.
Outra coisa que não pude filmar por causa da chuva foi o
vexame do paspalho do goleiro do Bahia, Marcelo, que com
um choro de perdedor começou uma luta campal depois do
apito final. Em seguida, também não pude filmar a
torcida do Vitória gritando “time de p..., time de
p......”.
O Bahia, pelo oitavo ano consecutivo, não apareceu no
Fantástico como ator principal da noite das finais dos
estaduais. Seus torcedores, pelo oitavo ano consecutivo,
não ligaram a TV domingo de noite.
Em tempo, só pra gozar um pouco mais:
Quatro amigos (Peu, Beto, Léo e Carlão) prepararam uma
despedida de solteiro para Zé, que iria se casar em uma
semana. Alugaram uma casa no litoral norte e convidaram,
mediante pagamento, algumas garotas para a festa. Já no
fim da noite, exauridos, finalmente começaram a
conversar com elas. Falaram da vida, de cinema, de
música, carnaval e, claro, futebol. Beto então
perguntou:
– Vocês torcem pra que time?
– Eu torço pro Bahia – disse a primeira, uma morena alta.
– Eu também – falou a loirinha.
– Sou Bahia, claro, time da massa – disse a mulata.
– Tricolor de aço, sempre – se adiantou a oriental.
– Baêa, minha porra – disse a baixinha.
Um silêncio momentâneo tomou conta do ambiente. Constatando que todas torciam pro Bahia, Peu, Beto, Carlão e Zé, torcedores do Bahia, ficaram olhando com ar superior pra Léo, o único torcedor do Vitória no local. Mas Léo nem se abalou:
– Normal, já sabia disso... – disse ele.
– Já sabia o quê? Que o Bahia é maioria? – pirraçou Carlão.
– Não. Que o Bahia é time de p... – respondeu Léo.



