|
::
Artigos ::
Rivalidade: Os cricris do futebol
Renato
Ribeiro
Caros rubro-negros,
Quase todos nós temos aquele parente ou amigo tricolor chato (quase todos, porque segundo Luciano Santos e Leonardo Machado, eles não possuem nem parentes, nem amigos de sangue azul, vermelho e branco). Aquele que quando você ganha do Bahia já começa a imaginar o céu na segunda-feira, que toma contornos de fim-de-semana, mas quando perde fica mais pálido que a batina do Papa Bento XVI, já antecipando o teste de paciência ao qual será submetido no dia seguinte.
Lógico que eles sentem o mesmo. Qual tricolor não ficou apavorado em tentar descobrir quais seriam as gozações do dia pós “baVI da menta”? Qual torcedor do Bahia, após o nosso sexto gol (quarta flechada de Índio), não estampava face de velório? Claro que, após esses feitos, a seqüência de pensamentos deles consistia em “que miséria!”, “perdemos o jogo!”, “time lenhado!”, “amanhã, fulano do trabalho vai me matar!”.
Pois é, tive grandes momentos de alegria nos anos de 1996 e 1997. Nesses anos, conquistamos o bi e o tricampeonato baiano, além, é claro, de termos batido no Bahia sem dó. Eu fazia faculdade de Fisioterapia e tinha um colega de sala que permaneceu em nosso convívio somente nesses anos, saindo logo em seguida por não estar se identificando com o curso. O fato é que esse colega veio realmente a se tornar um grande amigo meu e hoje é formado em administração de empresas. Cara simples, que aprecia uma cerva gelada, bom de “resenhas” e fã de rock’n roll.
Estávamos sempre com outros amigos no intervalo das aulas, no pátio do campus da Universidade Católica, em Pituaçu, jogando conversa fora e dando muitas risadas. Tínhamos opiniões muito parecidas em relação à música, religião, política, comportamento, conduta profissional. Mas quando o assunto era futebol, o bicho pegava.
Esse era o cara que eu não queria ver se perdêssemos um baVI. Ele era um verdadeiro cricri. Aquela figura das pirraças criativas, que ia de camisa tricolor no outro dia, que fazia piadinhas em todas as aulas, etc. Lógico que a recíproca era verdadeira, pois eu também sou chato pacas! Quando o Vitória vencia o Bahia, a primeira coisa que eu fazia ao chegar à faculdade era procurá-lo. Literalmente, ele sofria em minhas mãos e, com toda a certeza, sentia calafrios ao me encontrar no dia seguinte de um insucesso do seu time frente ao Leão. Nossos colegas de sala adoravam assistir as provocações e gozações de um para com o outro.
Para vocês terem uma idéia do fanatismo de nós dois, eu deixei de ir ao bar Tio Medrado, que tinha na Pituba, devido seu dono ser tricolor. Ele e o irmão cancelaram a conta no Excel Econômico quando souberam da parceria que o banco faria com o Leão da Barra, que se concretizou com a vinda de jogadores como Bebeto Gama, Chiquinho e Russo. Imagine só!
|

Mais
uma das inúmeras festas rubro-negras na Fonte Nova
(Foto: Arquivo) |
E a grande lembrança que tenho desse período de rivalidade com ele foi aquela vitória no clássico realizado na Fonte Nova em que o goleiro tricolor, o camaronês Willian Andem (o que certa vez profetizou que Messias tinha “cabeço pequeno”), foi tentar fazer um gol de cabeça. Lembro bem que o Bahia tentava empatar o clássico. E ao ver o tempo correr ao nosso favor, Willian Andem lançou-se ao |
ataque no intuito de aproveitar um escanteio. Ao ter sua tentativa frustrada pela zaga rubro-negra, o goleiro tricolor se viu no desespero de retornar a sua meta. O problema é que a bola caiu em nossos pés e então se iniciou o nosso contra-ataque, concluído com o gol de Uéslei que, após receber o passe de Humberto, desviou de carrinho para a meta tricolor vazia. Uéslei podia ter entrado com bola e tudo!
Meu relato foi mais ou menos esse: “Vai, que o goleiro tá fora! Vamos fazer essa z...! Goooooooooooooooooool! Bora, Vitória p...! Amanhã vou matar aquele miserável!”. E haja gargalhada só de lembrar que o dito cujo também se encontrava na Fonte Nova e que devia estar paralisado com o desfecho do jogo. Lógico que as pessoas em volta não sabiam a quem eu me referia. Mas tinham certeza que se tratava de um tricolor chato e que iria sofrer no outro dia.
Saí com meu pai e meus irmãos do estádio, já me encontrava dentro do carro, com o hino tocando, festejando, gritando sem parar e imaginando quais seriam as gozações do dia seguinte. Porém, Deus ainda me reservaria a cena do dia. Não, meus amigos! A cena do dia não consistiu em nenhum dos gols do Vitória, nem Willian Andem correndo atabalhoado, feito palhaço de circo no meio-campo, nem a bela festa rubro-negra nas arquibancadas.
Quando eu, meio que distraído, olho para o outro lado da rua, perto da Ladeira da Fonte das Pedras, visualizo quem? Ele! Sim! Ele mesmo! E estava saindo de fininho por trás de um poste de iluminação. O filho da mãe tinha me visto e tentou se esconder! E me olhava de canto de olho esperando nosso carro passar!Aí foi demais! Desci do carro e o pirracei sem dó! Gritava: “Seu miserável! Sai que é suuuuuuuuuuuuuuuua, Willian
Andeeeeeeeeeemmmmmmmmmm!”.
Na segunda-feira, a gozação continuou para a alegria e diversão de nossos colegas de turma e até de campus (a coisa já tinha tomado essas proporções)! E tenho certeza que esse é um dos dias que ele menos deseja recordar quando se trata de alguma derrota em
baVIs.
Renato
dos Anjos Ribeiro
Rubro-negro
e fisioterapeuta.
E-mail:
tinhojhow@yahoo.com.br
-
|