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Revista Eletrônica BOL - Edição nº 30 - 3 a 9 de agosto de 2008

Luciano Santos

:: Artigos ::

Vitória X Atlético-PR (aos 43 do segundo tempo, aos 36 anos...)

Ricardo Cury

E como foi prometido, Xandão, meu amigo atleticano paranaense, que foi comigo no Vitória x Náutico, pisou o pé (quente, por sinal) pela segunda vez no Barradão.

O porém é que, durante a aproximação do dia do jogo, mais pessoas foram querendo ir com a gente. No final, fomos cinco. Só eu de Vitória contra um atleticano e três torcedores do pobre Bahia. Compreendo eles, coitados...

Nos instalamos na torcida do Atlético. Os comentários ali eram de choro de perdedor antes da hora: “Estamos com seis desfalques”, “ Fulaninho tá machucado”, “Joãozinho nhé, nhé, nhé...”. Um, de camisa do Atlético, soltou um “oxente” em uma de suas falas, transparecendo que era mais um torcedor do pobre coitado do Bahia querendo ver um joguinho de futebol de primeira. “Esse cavalo é égua”, pensei.

No primeiro tempo, ficamos separados. Fui para atrás do gol em que o Vitória atacava, enquanto eles ficaram na torcida do Atlético Paranaense. Vi o time atacar, atacar, atacar, não fazer gol e tomar um. Pior do que tomar um gol é tomar um gol olímpico, chovendo e com um bando de tricolor comemorando.

Um senhor que se protegia da chuva com uma bandeira me chamou, dizendo que tinha espaço pra mim. Abriu mais um pedaço e ficamos juntos, enrolados na bandeira do Vitória, reclamando da chuva e dos dois Neys, o que fez o gol e o que tomou o gol.
Por causa de Williams Santana, fiquei encharcado com a chuva. Ele chutou na trave e o dono da bandeira, enquanto a bola ainda fazia a sua trajetória, achou que ia ser gol e saiu correndo levando a bandeira. Voltou pedindo desculpa.

– Não me contive, achei que ia ser gol – disse ele.

Por causa da chuva, não obtive nesse jogo boas imagens. Mas tem um pequeno registro, da nossa câmera exclusiva do Barradão On Line.

Um torcedor atrás de mim, puto da vida com o Vitória, usava a palavra “displicente” a todo momento. Um passe errado de Marquinhos, e ele dizia “esse Marquinhos é displicente”. Passe errado de Leonardo, “esse Leonardo é muito displicente”.
Acabou o primeiro tempo e fui pra torcida atleticana, me encontrar com meus amigos.

Ouvi piadas sobre a vesguice do goleiro Ney, que pior do que o gol tomado só a sua participação no comercial do Vitória. A diretoria errou feio. O comercial é horrível. Horroroso. De segunda divisão. Os jogadores não são atores. Eles vendem ingressos se fizerem gols, e não aparecendo na TV dizendo frases decoradas.

O gol olímpico era o tema do intervalo. “Gol olímpico é foda, humilhante”, diziam eles, humilhando...

O segundo tempo começou e Xandão estava confiante na vitória. O Atlético voltou melhor diante do Vitória. O Ney do Vitória se redimiu do gol olímpico fazendo uma defesa contra uma cabeçada certeira, do fogo amigo de Marcelo Cordeiro. Perder o jogo tomando um gol olímpico, tudo bem, mas perder o jogo tomando um gol olímpico e um outro contra seria demais.

Defender uma bola de um atacante adversário deve ser mais fácil do que defender uma bola que veio do seu zagueiro. Do adversário você já esperava por aquilo.

Mas aos sete minutos, o Vitória foi pra cima, e, num bate-rebate louco na área atleticana, a bola sobrou pra ele, Marquinhos, o displicente, que tava ali só olhando, e a bola já foi em direção a ele certinha, na medida, pra ele já chegar chutando, que foi o que fez. Um gol simples com uma comemoração emocionante.

Rubro-negros felizes de um lado, rubro-negros e tricolores tristes de outro. É até bom que eles fiquem juntos, já fazem amizade, ano que vem podem se bater na série B, lá em Feira...

“Agora o Vitória vai brocar”, pensaram todos. Mas o Atlético, com seus desfalques, continuou indo pra cima, perdendo chances que lhe custariam a partida. Confesso que cheguei a pensar “o empate vai ser um bom resultado”. A defesa do Vitória falhou mais do que o normal em relação aos outros jogos que assisti no Barradão. O Ney do Atlético fazia o que queria com a defesa do Vitória, fez até gol olímpico, mas não fez outro gol.

E aos 43 minutos, aos 36 anos de idade, Ramon, como que para coroar a sua permanência e teimosia em ficar os 90 minutos, recebeu o passe de Marquinhos, matando a bola no peito e chutando de primeira, no cantinho, furando a rede do Atlético... um gol simples. E, na regra do futebol, dois gols “simples” valem mais que um olímpico.

Dois gols simples valeram três pontos, permanência no topo da tabela e volta sorridente pra casa, num engarrafamento na saída do estádio, num carro com cinco pessoas. Só eu de rubro-negro, um atleticano e três tricolores...

Ricardo Cury

Autor do livro "Para Colorir", escreve o blog Eu Tava Aqui Pensando ou Blá Blá Blá. Publicado simultaneamente com o blog parceiro Vitória no Barradão

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