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Revista Eletrônica BOL - Edição nº 28 - 20 a 26 de julho de 2008

Ricardo Nery

:: Opinião ::

Sorria, visitante, você está no Barradão

José Raimundo Silveira

A Bahia é pintada por aí como um local que sabe receber bem seus visitantes. Tá certo que tal imagem muito se deve à política governamental, não importando matiz partidária, de propagar a idéia de que os turistas são tratados como reis por aqui. Tudo para manter em alta as taxas de ocupação da rede hoteleira, gerando dividendos para cá. É verdade que a questão do serviço é uma tragédia e, por motivos culturais e de ausência de oportunidades, nosso povo é de uma falta de educação impressionante. No entanto, regra geral, somos corteses com aqueles que vêm conhecer esse estado apaixonante.

O Barradão é uma amostra bastante ilustrativa do fino trato dispensado aos visitantes. Não me refiro aos resultados obtidos pelos adversários do Vitória em nossa casa. Até porque o estádio foi um divisor de águas na história do clube, alavancando seu crescimento. Nesse Brasileirão, até o jogo contra o São Paulo, o Leão era o mandante mais eficiente. Faço referência à maneira como são recebidos os torcedores dos nossos oponentes em casa.

Vez por outra, ouço uma chiadeira dos "estrangeiros", digamos assim, que vão ao Barradas. Conclamo os mesmos aventurarem-se a torcer pelos seus times quando jogarem em outros estádios. Depois, podem fazer uma comparação mais aprofundada. E, aposto, sentirão saudades de freqüentar o estádio do representante baiano na primeira divisão.

Claro que existem fatos isolados e absurdos. Teve aquele imbecil que atirou um rojão contra uma torcedora do Botafogo do Rio, em 2004, ou alguns incidentes envolvendo seguidores do "time da fila", em dias de clássicos no Barradão. Porém, reitero, são exceções. O que percebo é uma diferença gritante no tratamento de torcedores visitantes, que são, sim, muito bem recebidos no Barradão.

Tudo começa com relação ao preço dos ingressos, razão principal desse meu texto. Simplesmente não há diferenciação. O que eu acho um absurdo. Sim, um absurdo. Quer dizer, o camarada vai ao meu estádio, torcer contra o meu time e vai pagar o mesmo que eu? Negativo! É preciso que o Vitória reveja essa política, que traz prejuízos de toda ordem ao clube.

Prejuízo técnico, porque haverá vozes botando o Vitória para trás, beneficiando o oponente. Prejuízo da segurança, porque nem todo torcedor visitante tem o mesmo comportamento em geral pacato dos rubro-negros, que ainda primam por zelar pelo patrimônio do clube (lembram da baderna causada pela torcida do Atlético-MG, em 99, nos bares do Barradão, ou na derrubada do nosso alambrado pelos vândalos coloridos, em 98, quando comemoravam?). E prejuízo financeiro, claro, porque o clube deixa de arrecadar uma grana a mais em cima dos "estrangeiros".

O jogo contra o São Paulo mostrou claramente essa necessidade. A presença de grande número de torcedores adversários, formados basicamente por paraibambis (aqueles tabaréus que pensam ter nascido na Vila Madalena ou Avenida Paulista e não sabem como nordestinos são tratados no Centro-Sul do país) e sofredores do "time da fila", ávidos por ver um jogo de Série A, prejudicou o Leão. No final da partida, ainda circularam entre os rubro-negros sem qualquer incômodo, cantando músicas entoadas pelo time da segunda divisão durante a bela campanha do vice-campeonato baiano de 2008. Eles sabem que nossa torcida é pacífica. Vá fazer isso em São Januário!

Fui assistir esse ano ao jogo do Vitória contra o Sport, na Ilha do Retiro, e desembolsei R$ 48, por dois ingressos de "arquibancada visitante" (sim, o nome é esse mesmo). E o local destinado foi bem no cantão, ao contrário do que ocorre no Barradão. Recentemente, o Atlético-PR criou o "ingresso rival" para os clássicos contra o Coritiba na Arena da Baixada. Preço mais caro, naturalmente.

Não seria nada demais o Vitória adotar essa estratégia. Além de restringir o número de ingressos para visitantes. Não enxergo impedimentos operacionais. Que se crie um acesso exclusivo para eles. Os que tentarem dar uma de sabidos terão que passar pelo constrangimento de torcer no meio dos rubro-negros. E, claro, sujeitar-se ao perigo das exceções...

José Raimundo Silveira

Militar, jornalista e rubro-negro desde os tempos de Ricky.

E-mail: tencerqueira@gmail.com

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