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Revista Eletrônica BOL - Edição nº 23 - 15 a 21 de junho de 2008

Ricardo Cury

:: Artigos ::

Chuva rima com menta

Ricardo Cury

Foi o primeiro jogo do Vitória que fui assistir na Série A deste ano. O último jogo que vi do Vitória na Série A foi em 2004. Até chamei um amigo meu que é torcedor do Bahia para ir comigo assistir ao jogo, usando isso como argumento: 

Bora, rapaz, tem quanto tempo que você não vê um jogo de primeira? 

Mas ele não quis ir.  

O dia estava chuvoso e em diversos momentos cogitei não ir ao estádio. Mas, mesmo na dúvida, fui. Logo na entrada, já com o ingresso na mão, avistei uns guarda-chuvas abertos expostos no chão. De um lado, o céu de Salvador estava azul, de outro, branco e preto. “Melhor comprar antes que comece a chover”, pensei, preocupado com as nuvens do lado de lá e com a inflação que o guarda-chuva sofreria com a mudança no tempo. 

Assim que entrei no estádio, a primeira mudança que percebi com a subida do Vitória pra Série A foram os anúncios do Itaú e da Vivo no gramado. Assim como os anúncios, para a Série A aumentou também a fiscalização sobre pessoas que poderiam ter acesso ao gramado. Ainda não conseguimos, mas o Barradão On Line está tentando normalizar a situação para que em breve possamos voltar a acessar o campo de jogo. Para Vitória x Santos, assisti só das arquibancadas. 

Antes do Vitória, o guarda-chuva entrou em campo. Foram os R$6 mais bem pagos dos últimos anos. A chuva veio forte. Bom guarda-chuva, recebeu um vento contrário e não virou, e ainda me manteve seco. Problema de jogo com chuva é que ninguém senta e assim tem que ver o jogo de pé. 

Gol a favor. Mesmo com tempo ruim, a torcida marcou presença (Fotos: Ricardo Cury).

Começou a partida e com ela as opiniões dos torcedores pipocando pelo estádio. Um torcedor de boné, cigarro na boca, 50 anos e sem camisa, reclamava em voz alta que “não tem mais cerveja nessa merda”. Agora é lei, não pode mais vender cerveja dentro de estádio.  

- “Mas eu vi vendendo cerveja ali” - disse um torcedor de calça jeans, camisa oficial, óculos de grau e fone nos ouvidos, querendo criar a amizade que sempre acontece em estádios de futebol. 

Essas amizades são interessantes. Começam e acabam em pouco mais de 90 minutos. São intensas, pois ali o objetivo de todos é o mesmo. As diferenças sociais e, principalmente, as diferenças pessoais desaparecem. Se o cara tá desempregado desde 2005, o outro a mulher tá traindo, o do lado descobriu que o filho tá usando drogas, se Varela e ACM Neto se uniram... Nada importa, e nada barra o acolhimento pelo próximo, que só existe em um jogo de futebol, em uma tentativa de se criar um laço humanitário. 

– “Aonde?” – perguntou o que reclamava. 

– “Ali, tinha a placa ‘Schin, 1,50’” – disse apontando para o bar. 

Ele subiu correndo os degraus, feliz da vida, encontrou o amigo do jogo, o mensageiro das boas novas, o cara que vai comemorar o gol com ele... Mas voltou com três cigarros na mão, gritando com a lei, com o técnico Vágner Mancini por ter escalado Willians Santana e com o torcedor que tentou ser gente boa, avisando da cervejinha que viu sendo vendida... 

– “É CERVEJA SEM ÁLCOOL” – gritou ele, puto da vida. 

O que queria ser gente boa desceu uns cinco degraus depois dessa. 

O Vitória começou bem. Atacou com consistência e teve chances reais de gol aos nove, aos onze e aos quinze, com Fábio Costa fazendo grandes defesas nas três ocasiões. 

Fábio, de costa.

Um gordinho simpático do meu lado, uns 12 anos, uma barriga bem redonda, camisa oficial de manga longa, acompanhado do pai, gritava a cada passe dado: 

­– “Bolão, bolão, bolão...”. 

Aí, quando o cara que iria receber o tal bolão dominava a bola, ele dizia: 

– “Calma, calma, calma...”. 

E depois dizia “bolão, bolão, bolão” de novo, se o jogador desse um outro passe certo. E, aos 22, antes de uma cobrança de falta na intermediária, ele disse: 

– “Ó o gol do Vitória aí, ó o gol aí...”. 

Marco Antonio colocou a bola na área, o gordinho gritou “bolão, bolão, bolão”, Dinei entrou sozinho, “bolão, bolão, gol, goool, eu falei, eu faleeeeeeeeeeiiiii, gooooooool, eu faleeeeeeei...”. O gordinho foi abraçado por gente como a porra. Eu fiquei anotando as coisas e recebi um tapão nas costas, junto com o grito “comemora, porra”, de um cara que nunca vi na vida. Comemorei a lei, que acabou com os banhos de cerveja que aconteciam através dos copos que voavam nos gols do Vitória. 

Desci para bem próximo do gramado para tentar fazer uma boa foto do jogo. Três policiais intimidavam qualquer torcedor a se aproximar do muro. Me aproximei com a câmera e eles não fizeram nada. Um minuto depois, recebendo um chamado pelo rádio, eles saíram dali e, no mesmo instante, uns 10 torcedores se agarraram na grade gritando “Fábio Costa viado, vou comer seu c...”.  

Um torcedor de bermuda e camisa verde falava, calmamente, achando que assim ganharia a confiança do goleiro, que olharia para ele: 

– “Fábio, Fábio, olhe pra cá, sério, na boa, Fábio, olhe pra cá...”. 

Aí, ele foi se irritando aos poucos: 

– “Olhe pra cá, porra...”. 

Ele continuou enchendo o saco de Fábio Costa, que hora nenhuma se desconcentrou e fez outra defesa importante aos 33, em um chute de Dinei. E o time do Santos só encheu o saco de Viáfara aos 43 minutos. Viáfara fez também boa defesa, sem rebote, em um chute forte de Molina. 

Eu pensava que o nome do goleiro do Vitória era Biafra. Até imaginei que a mãe dele (ou o pai) deveria ser fã do cantor Biafra e fez uma homenagem. Só escrevendo este texto foi que pesquisei e descobri que não era Biafra, e sim Viáfara. Gosto mais de “Biafra”. Nomes à parte, Viáfara se mostrou um grande goleiro, principalmente no segundo tempo.  

Recado pra diretoria: trate bem as nossas torcedoras.

Intervalo de jogo, consegui comprar uma água sem muito sofrimento, diferente de quando vendia cerveja, que, da forma que era vendida, com um número mínimo de funcionários para servir uma multidão de milhares de pessoas, era uma completa falta de respeito com os torcedores e com os próprios funcionários do bar. A diretoria precisa ficar atenta a isso. Já que o futebol moderno virou empresa, os torcedores viraram clientes, então é bom tratar bem. No Vitória x Santos, tinha fila para as mulheres entrarem no banheiro feminino.  

Converso com um funcionário a respeito da proibição de cerveja e ele diz que o trabalho ficou mais tranqüilo, mas que alguns perderam o emprego. Um outro torcedor que ouvia nossa conversa gritou, ao me ver anotando a conversa: 

– “É pro A Tarde, é?”. 

Falei que era pro Barradão On Line e ele disse que queria dar uma opinião: 

– “Anote aí, essa lei é um absurdo... O cara que bebe fica mais nervoso ainda quando não bebe. É um absurdo... E, pior, ele já chega no estádio bêbado, enche a cara muito mais do que o normal lá fora, e já chega aqui mamado”. 

Gols contra. A gente sabe que os banheiros poderiam ser maiores e melhores, mas não justifica essa falta de educação.
 

O segundo tempo começou e o Santos foi pra cima, contradizendo sua condição de time com 10 jogadores desde o sete minutos da segunda etapa, com a expulsão de Wesley. Com o Santos atacando, Biafra (vou chamá-lo de Biafra), se tornou um jogador importante, assim como os zagueiros do Vitória. 

O meio-campo caiu de produção, o Santos investia o tempo todo e nada conseguia de concreto, mostrando que o Vitória estava com uma defesa coesa. Que continue assim. 

Aos 21 minutos, a chuva voltou. A torcida estava impaciente com a possibilidade de tomar um gol em casa por um time com menos um. Willians Santana foi trocado por Muriqui. 

– “Quem?” – perguntou um torcedor pra mim. 

– Muriqui – respondi. 

Mas ele não entendeu bem, pois logo depois Muriqui errou um passe e ele gritou:

– “Esse Piriquito é uma merda”. 

– Muriqui – disse eu, o corrigindo. 

– “Muriquito, Piriquito, é tudo mesma merda” – gritou ele. 

Depois, ele disse que se o Vitória tomasse um gol a culpa era do treinador, que mexeu errado. E reclamou do atacante Marquinhos. 

– “Esse não joga no meu baba... é medroso”. 

Aos 45, a primeira falha da defesa, mas o atacante do Santos falhou mais ainda e a bola foi pra fora. Resultado final: Vitória 1x0 Santos. O time foi para a oitava colocação. 

Na saída, em direção ao carro, dois torcedores conversavam: 

– “Apostei 10 cervejas”.

– “Com quem?” – perguntou o amigo. 

– “Uns cara aí do Bahia...”. 

– “Então vamo tomar” – finalizou. 

Em tempo: Já dentro do carro, ouvi no rádio que naquele momento se inaugurava no Barradão uma nova sala de imprensa, muito luxuosa e bem equipada, construída para atender aos profissionais da imprensa. Tô esperando esse cuidado com nós, torcedores, com bares e banheiros nesse estilo.

 

Ricardo Cury

Autor do livro "Para Colorir", escreve o blog Eu Tava Aqui Pensando ou Blá Blá Blá.

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