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Chuva rima com menta
Ricardo
Cury
Foi o primeiro jogo do Vitória que fui assistir na Série
A deste ano. O último jogo que vi do Vitória na Série A foi em
2004. Até chamei um amigo meu que é torcedor do Bahia para ir
comigo assistir ao jogo, usando isso como argumento:
– Bora, rapaz, tem quanto
tempo que você não vê um jogo de primeira?
Mas ele não quis ir.
O dia estava chuvoso e em diversos
momentos cogitei não ir ao estádio. Mas, mesmo na dúvida, fui.
Logo na entrada, já com o ingresso na mão, avistei uns
guarda-chuvas abertos expostos no chão. De um lado, o céu de
Salvador estava azul, de outro, branco e preto. “Melhor comprar
antes que comece a chover”, pensei, preocupado com as nuvens do
lado de lá e com a inflação que o guarda-chuva sofreria com a
mudança no tempo.
Assim que entrei no estádio, a
primeira mudança que percebi com a subida do Vitória pra Série A
foram os anúncios do Itaú e da Vivo no gramado. Assim como os
anúncios, para a Série A aumentou também a fiscalização sobre
pessoas que poderiam ter acesso ao gramado. Ainda não
conseguimos, mas o Barradão On Line está tentando
normalizar a situação para que em breve possamos voltar a
acessar o campo de jogo. Para Vitória x Santos, assisti só das
arquibancadas.
Antes do Vitória, o guarda-chuva
entrou em campo. Foram os R$6 mais bem pagos dos últimos anos. A
chuva veio forte. Bom guarda-chuva, recebeu um vento contrário e
não virou, e ainda me manteve seco. Problema de jogo com chuva é
que ninguém senta e assim tem que ver o jogo de pé.

Gol a favor.
Mesmo com tempo ruim, a torcida marcou presença (Fotos: Ricardo
Cury).
Começou a partida e com ela as
opiniões dos torcedores pipocando pelo estádio. Um torcedor de
boné, cigarro na boca, 50 anos e sem camisa, reclamava em voz
alta que “não tem mais cerveja nessa merda”. Agora é lei, não
pode mais vender cerveja dentro de estádio.
- “Mas eu vi vendendo cerveja ali”
- disse um torcedor de calça jeans, camisa oficial, óculos de
grau e fone nos ouvidos, querendo criar a amizade que sempre
acontece em estádios de futebol.
Essas amizades são interessantes.
Começam e acabam em pouco mais de 90 minutos. São intensas, pois
ali o objetivo de todos é o mesmo. As diferenças sociais e,
principalmente, as diferenças pessoais desaparecem. Se o cara tá
desempregado desde 2005, o outro a mulher tá traindo, o do lado
descobriu que o filho tá usando drogas, se Varela e ACM Neto se
uniram... Nada importa, e nada barra o acolhimento pelo próximo,
que só existe em um jogo de futebol, em uma tentativa de se
criar um laço humanitário.
– “Aonde?” – perguntou o que
reclamava.
– “Ali, tinha a placa ‘Schin,
1,50’” – disse apontando para o bar.
Ele subiu correndo os degraus,
feliz da vida, encontrou o amigo do jogo, o mensageiro das boas
novas, o cara que vai comemorar o gol com ele... Mas voltou com
três cigarros na mão, gritando com a lei, com o técnico Vágner
Mancini por ter escalado Willians Santana e com o torcedor que
tentou ser gente boa, avisando da cervejinha que viu sendo
vendida...
– “É CERVEJA SEM ÁLCOOL” – gritou
ele, puto da vida.
O que queria ser gente boa desceu
uns cinco degraus depois dessa.
O Vitória começou bem. Atacou com
consistência e teve chances reais de gol aos nove, aos onze e
aos quinze, com Fábio Costa fazendo grandes defesas nas três
ocasiões.

Fábio, de costa.
Um gordinho simpático do meu lado,
uns 12 anos, uma barriga bem redonda, camisa oficial de manga
longa, acompanhado do pai, gritava a cada passe dado:
– “Bolão, bolão, bolão...”.
Aí, quando o cara que iria receber
o tal bolão dominava a bola, ele dizia:
– “Calma, calma, calma...”.
E depois dizia “bolão, bolão,
bolão” de novo, se o jogador desse um outro passe certo. E, aos
22, antes de uma cobrança de falta na intermediária, ele disse:
– “Ó o gol do Vitória aí, ó o gol
aí...”.
Marco Antonio colocou a bola na
área, o gordinho gritou “bolão, bolão, bolão”, Dinei entrou
sozinho, “bolão, bolão, gol, goool, eu falei, eu
faleeeeeeeeeeiiiii, gooooooool, eu faleeeeeeei...”. O gordinho
foi abraçado por gente como a porra. Eu fiquei anotando as
coisas e recebi um tapão nas costas, junto com o grito
“comemora, porra”, de um cara que nunca vi na vida. Comemorei a
lei, que acabou com os banhos de cerveja que aconteciam através
dos copos que voavam nos gols do Vitória.
Desci para bem próximo do gramado
para tentar fazer uma boa foto do jogo. Três policiais
intimidavam qualquer torcedor a se aproximar do muro. Me
aproximei com a câmera e eles não fizeram nada. Um minuto
depois, recebendo um chamado pelo rádio, eles saíram dali e, no
mesmo instante, uns 10 torcedores se agarraram na grade gritando
“Fábio Costa viado, vou comer seu c...”.
Um torcedor de bermuda e camisa
verde falava, calmamente, achando que assim ganharia a confiança
do goleiro, que olharia para ele:
– “Fábio, Fábio, olhe pra cá,
sério, na boa, Fábio, olhe pra cá...”.
Aí, ele foi se irritando aos
poucos:
– “Olhe pra cá, porra...”.
Ele continuou enchendo o saco de
Fábio Costa, que hora nenhuma se desconcentrou e fez outra
defesa importante aos 33, em um chute de Dinei. E o time do
Santos só encheu o saco de Viáfara aos 43 minutos. Viáfara fez
também boa defesa, sem rebote, em um chute forte de Molina.
Eu pensava que o nome do goleiro
do Vitória era Biafra. Até imaginei que a mãe dele (ou o pai)
deveria ser fã do cantor Biafra e fez uma homenagem. Só
escrevendo este texto foi que pesquisei e descobri que não era
Biafra, e sim Viáfara. Gosto mais de “Biafra”. Nomes à parte,
Viáfara se mostrou um grande goleiro, principalmente no segundo
tempo.

Recado pra diretoria: trate bem as
nossas torcedoras.
Intervalo de jogo, consegui
comprar uma água sem muito sofrimento, diferente de quando
vendia cerveja, que, da forma que era vendida, com um número
mínimo de funcionários para servir uma multidão de milhares de
pessoas, era uma completa falta de respeito com os torcedores e
com os próprios funcionários do bar. A diretoria precisa ficar
atenta a isso. Já que o futebol moderno virou empresa, os
torcedores viraram clientes, então é bom tratar bem. No Vitória
x Santos, tinha fila para as mulheres entrarem no banheiro
feminino.
Converso com um funcionário a
respeito da proibição de cerveja e ele diz que o trabalho ficou
mais tranqüilo, mas que alguns perderam o emprego. Um outro
torcedor que ouvia nossa conversa gritou, ao me ver anotando a
conversa:
– “É pro A Tarde, é?”.
Falei que era pro Barradão On Line
e ele disse que queria dar uma opinião:
– “Anote aí, essa lei é um
absurdo... O cara que bebe fica mais nervoso ainda quando não
bebe. É um absurdo... E, pior, ele já chega no estádio bêbado,
enche a cara muito mais do que o normal lá fora, e já chega aqui
mamado”.
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Gols contra. A gente sabe
que os banheiros poderiam ser maiores e melhores, mas
não justifica essa falta de educação.
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O segundo tempo começou e o Santos
foi pra cima, contradizendo sua condição de time com 10
jogadores desde o sete minutos da segunda etapa, com a expulsão
de Wesley. Com o Santos atacando, Biafra (vou chamá-lo de Biafra),
se tornou um jogador importante, assim como os zagueiros do
Vitória.
O meio-campo caiu de produção, o
Santos investia o tempo todo e nada conseguia de concreto,
mostrando que o Vitória estava com uma defesa coesa. Que
continue assim.
Aos 21 minutos, a chuva voltou. A
torcida estava impaciente com a possibilidade de tomar um gol em
casa por um time com menos um. Willians Santana foi trocado por
Muriqui.
– “Quem?” – perguntou um torcedor
pra mim.
– Muriqui – respondi.
Mas ele não entendeu bem, pois
logo depois Muriqui errou um passe e ele gritou:
– “Esse Piriquito é uma
merda”.
– Muriqui – disse eu, o
corrigindo.
– “Muriquito, Piriquito, é tudo
mesma merda” – gritou ele.
Depois, ele disse que se o Vitória
tomasse um gol a culpa era do treinador, que mexeu errado. E
reclamou do atacante Marquinhos.
– “Esse não joga no meu baba... é
medroso”.
Aos 45, a primeira falha da
defesa, mas o atacante do Santos falhou mais ainda e a bola foi
pra fora. Resultado final: Vitória 1x0 Santos. O time foi para a
oitava colocação.
Na saída, em direção ao carro,
dois torcedores conversavam:
– “Apostei 10 cervejas”.
– “Com quem?” – perguntou o
amigo.
– “Uns cara aí do Bahia...”.
– “Então vamo tomar” –
finalizou.
Em tempo: Já dentro do carro, ouvi
no rádio que naquele momento se inaugurava no Barradão uma nova
sala de imprensa, muito luxuosa e bem equipada, construída para
atender aos profissionais da imprensa. Tô esperando esse cuidado
com nós, torcedores, com bares e banheiros nesse estilo.
Ricardo Cury
Autor do livro "Para Colorir",
escreve o blog
Eu Tava Aqui Pensando ou Blá Blá Blá.
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