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Loucuras de amor
José Raimundo
Silveira
Estava eu sem grande idéias
para a coluna semanal, quando me veio a lembrança do Dia dos
Namorados, que passou, deixando um rastro de bons momentos.
Apaixonado que sou pelas pessoas que amo e pela vida, aproveito
esse gancho.
Disse certa vez o matemático
francês Blaise Pascal que "o coração tem razões que a própria
razão desconhece". Clara referência a determinados atos que
costumamos fazer quando estamos ao extremo envolvidos
emocionalmente. Atos que, pensando apenas de forma racional, não
os faríamos.
Paixão universal, que ganha
proporções geométricas no Brasil, "país do futebol", o esporte
do pé na bola suscita muitas dessas loucuras. Não faltam
histórias de atitudes racionalmente insensatas que tomamos em
nome dele.
Não fujo à regra.
Já fui a jogo noturno escondido de minha mãe, em uma época que
as surras educativas eram algo comum e normal, já inventei
história mirabolante em escola militar só para ser liberado mais
cedo do quartel e ver meu Vitória e até acabei um namoro na
porta da Fonte Nova, pois a felizarda de então se recusou a
entrar no estádio para ver um Ba-Vi (aquele 1x0 com dois a
menos, golaço de cabeça do "gigante Arturzinho") e gerou uma
situação implícita de que ou era ela ou o Leão. Nenhum segundo
de dúvida, obviamente. Ela perdeu a chance de acrescentar meu
sobrenome ao dela, pois na comemoração do gol, extasiado que
estava eu, certamente lhe daria o beijo mais apaixonado da
história e a pediria em casamento ali, ajoelhado na
arquibancada.
Na minha recente
visita a Salvador, outra doideira. Ao invés de procurar as
várias opções de lazer da minha cidade para curtir o domingo à
tarde com meu filho, cacei a TV de algum conhecido que tivesse
comprado o pay-per-view do Brasileirão, já que a TV Esporte
Clube Bahia não passaria o clássico contra o Ipatinga em
transmissão aberta. Já havia acordado ansioso e não aproveitei
totalmente a praia matinal com meu guri. A cabeça estava em
parte no interior mineiro. O esforço foi devolvido com uma
atuação bisonha, diante de um rebaixado certo para a Série B.
Tudo bem, quem ama tem que estar disposto ao sacrifício e à
compreensão. Perdoei meu time, como em tantas outras vezes.
Mas não poderia
dar um tom triste a esse texto. Claro que não! Em meus 23 anos
de casamento com o rubro-negro, foram muito mais alegrias que
frustrações. A passagem do confronto diante do Santos atiça
minha lembrança. Taí, Leão e Peixe podem até um dia decidir a
Libertadores, mas o confronto eterno em minha mente é imutável.
Não, não foi o 2x2 de 93, na fase semifinal do Brasileirão.
Também não foi o 1x1 de 86, no amistoso de inauguração do
Santuário Barradão, nem o chocolate de 4x0, em 95, quando o
craque santista Giovanni não viu a cor da bola. Meu Vitória x
Santos eterno, que envolveu uma loucura de amor, foi um jogo de
fase classificatória do Brasileirão de 97.
RUAS DESERTAS -
Naquela época, ainda universitário, vivia de bicos. Culpa do
"naufrágio" do jornal Bahia Hoje, onde era repórter estagiário
da editoria de esportes. Um desses bicos era em uma empresa de
consulta de cheques, na qual eu dizia aos lojistas se o emitente
tinha o nome limpo. Uma delícia de trabalho, que envolvia
jornadas nos finais de semana e feriados. Não é que fui escalado
para um sábado à noite, justamente quando o Vitória jogava em
casa contra o Santos? Desespero total! O que fazer?
Não podia
abandonar meu amor naquele momento: penúltima rodada do
Brasileirão, com o time na luta para se qualificar às finais. O
tempo ia passando, o horário do jogo se aproximando e a vontade
de destruir o computador aumentando. A sala, com cerca de dez
funcionários, esvaziava-se aos poucos, ao passo que as ligações
dos lojistas diminuíam. Pensei: tenho que sair daqui. O que
digo: que meu prédio desabou, que minha mãe foi seqüestrada ou
que comi caruru, repolho e sarapatel no almoço? No final, decidi
falar a verdade ao funcionário restante que dividia o horário
comigo: "Meu velho, o chefe já foi e o movimento parou aqui. O
amor da minha vida está precisando muito de mim agora, pois está
se sentindo muito só". Diante de tamanho apelo apaixonado, o
cara, que era um dos maiores entregões da empresa, teve tempo
apenas para balançar afirmativamente a cabeça, enquanto eu saía
às pressas da sala, tirando a camisa rubro-negra de dentro da
mochila. Dependia daquela grana, mas há coisas mais importantes
que o dinheiro na vida.
Lá estava eu,
andando como um louco pelas perigosas ruas desertas e escuras do
Comércio, sábado à noite, caçando um ônibus para o Barradão. Se
transporte coletivo para nosso estádio é uma lástima hoje,
imagina 11 anos atrás... Pulei dentro do primeiro buzão que se
dirigia à Estação Pirajá – condução direta para o Barradas, nem
pensar. Conversava com os ponteiros do relógio para andarem mais
lentos, pois o apito inicial estava próximo e o estádio, longe
pacas.
Chegando à estação
de transbordo, uma demora eterna para chegar algum carro (já viu
como pobre adora chamar buzu assim?) para meu destino. Ao
avistar o primeiro, as dezenas de rubro-negros que estavam com o
mesmo objetivo que eu avançaram. Não sei como entrei e como saí
do ônibus, mas cheguei ao campo vivo. Entrei no estádio com uns
10 minutos de bola rolando, após pagar ingresso majorado na mão
de cambista.
Minha abnegação
valeu a pena. O Vitória de Petkovic meteu 2x0, com gols do meia
cabeça-oca Kléber, no primeiro tempo, e do obscuro atacante
Narcízio, de peixinho, no segundo. Até o contestado goleiro
Nílson mandou bem, pegando um pênalti inexistente marcado pelo
gaúcho Simon. Não sabia como voltaria para casa, pois já era
quase meia-noite quando o jogo acabou (fiz cara de cachorro sem
dono e arrumei carona com um irmão rubro-negro), mas estava
feliz e com sentimento de dever cumprido.
Tudo bem que uma semana depois o Vitória entregou a
classificação às finais de bandeja para o Juventude, após perder
para os reservas do Atlético-MG. Porém, houve a compensação de
que o resultado dos gaúchos rebaixou o "time da fila" para a
Segundona, de onde jamais saíram no campo, mácula moral
indelével. Ocorreu algo mais importante, todavia. Naquela noite
mágica, o Vitória mais uma vez mostrou que meu amor por ele tem
reciprocidade. Ele nunca me abandonará.
Faça todo dia um feliz Dia dos Namorados e muitos vivas aos
amores de verdade!!!!!
PS: Não demorei muito tempo naquele emprego, graças ao meu bom
Deus...
José Raimundo
Silveira
Militar,
jornalista e rubro-negro desde os tempos de Ricky.
E-mail:
tencerqueira@gmail.com
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