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Revista Eletrônica BOL - Edição nº 23 - 15 a 21 de junho de 2008

Luciano Santos

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Loucuras de amor

José Raimundo Silveira

Estava eu sem grande idéias para a coluna semanal, quando me veio a lembrança do Dia dos Namorados, que passou, deixando um rastro de bons momentos. Apaixonado que sou pelas pessoas que amo e pela vida, aproveito esse gancho.

Disse certa vez o matemático francês Blaise Pascal que "o coração tem razões que a própria razão desconhece". Clara referência a determinados atos que costumamos fazer quando estamos ao extremo envolvidos emocionalmente. Atos que, pensando apenas de forma racional, não os faríamos.

Paixão universal, que ganha proporções geométricas no Brasil, "país do futebol", o esporte do pé na bola suscita muitas dessas loucuras. Não faltam histórias de atitudes racionalmente insensatas que tomamos em nome dele.

Não fujo à regra. Já fui a jogo noturno escondido de minha mãe, em uma época que as surras educativas eram algo comum e normal, já inventei história mirabolante em escola militar só para ser liberado mais cedo do quartel e ver meu Vitória e até acabei um namoro na porta da Fonte Nova, pois a felizarda de então se recusou a entrar no estádio para ver um Ba-Vi (aquele 1x0 com dois a menos, golaço de cabeça do "gigante Arturzinho") e gerou uma situação implícita de que ou era ela ou o Leão. Nenhum segundo de dúvida, obviamente. Ela perdeu a chance de acrescentar meu sobrenome ao dela, pois na comemoração do gol, extasiado que estava eu, certamente lhe daria o beijo mais apaixonado da história e a pediria em casamento ali, ajoelhado na arquibancada.

Na minha recente visita a Salvador, outra doideira. Ao invés de procurar as várias opções de lazer da minha cidade para curtir o domingo à tarde com meu filho, cacei a TV de algum conhecido que tivesse comprado o pay-per-view do Brasileirão, já que a TV Esporte Clube Bahia não passaria o clássico contra o Ipatinga em transmissão aberta. Já havia acordado ansioso e não aproveitei totalmente a praia matinal com meu guri. A cabeça estava em parte no interior mineiro. O esforço foi devolvido com uma atuação bisonha, diante de um rebaixado certo para a Série B. Tudo bem, quem ama tem que estar disposto ao sacrifício e à compreensão. Perdoei meu time, como em tantas outras vezes.

Mas não poderia dar um tom triste a esse texto. Claro que não! Em meus 23 anos de casamento com o rubro-negro, foram muito mais alegrias que frustrações. A passagem do confronto diante do Santos atiça minha lembrança. Taí, Leão e Peixe podem até um dia decidir a Libertadores, mas o confronto eterno em minha mente é imutável. Não, não foi o 2x2 de 93, na fase semifinal do Brasileirão. Também não foi o 1x1 de 86, no amistoso de inauguração do Santuário Barradão, nem o chocolate de 4x0, em 95, quando o craque santista Giovanni não viu a cor da bola. Meu Vitória x Santos eterno, que envolveu uma loucura de amor, foi um jogo de fase classificatória do Brasileirão de 97.

RUAS DESERTAS - Naquela época, ainda universitário, vivia de bicos. Culpa do "naufrágio" do jornal Bahia Hoje, onde era repórter estagiário da editoria de esportes. Um desses bicos era em uma empresa de consulta de cheques, na qual eu dizia aos lojistas se o emitente tinha o nome limpo. Uma delícia de trabalho, que envolvia jornadas nos finais de semana e feriados. Não é que fui escalado para um sábado à noite, justamente quando o Vitória jogava em casa contra o Santos? Desespero total! O que fazer?

Não podia abandonar meu amor naquele momento: penúltima rodada do Brasileirão, com o time na luta para se qualificar às finais. O tempo ia passando, o horário do jogo se aproximando e a vontade de destruir o computador aumentando. A sala, com cerca de dez funcionários, esvaziava-se aos poucos, ao passo que as ligações dos lojistas diminuíam. Pensei: tenho que sair daqui. O que digo: que meu prédio desabou, que minha mãe foi seqüestrada ou que comi caruru, repolho e sarapatel no almoço? No final, decidi falar a verdade ao funcionário restante que dividia o horário comigo: "Meu velho, o chefe já foi e o movimento parou aqui. O amor da minha vida está precisando muito de mim agora, pois está se sentindo muito só". Diante de tamanho apelo apaixonado, o cara, que era um dos maiores entregões da empresa, teve tempo apenas para balançar afirmativamente a cabeça, enquanto eu saía às pressas da sala, tirando a camisa rubro-negra de dentro da mochila. Dependia daquela grana, mas há coisas mais importantes que o dinheiro na vida.

Lá estava eu, andando como um louco pelas perigosas ruas desertas e escuras do Comércio, sábado à noite, caçando um ônibus para o Barradão. Se transporte coletivo para nosso estádio é uma lástima hoje, imagina 11 anos atrás... Pulei dentro do primeiro buzão que se dirigia à Estação Pirajá – condução direta para o Barradas, nem pensar. Conversava com os ponteiros do relógio para andarem mais lentos, pois o apito inicial estava próximo e o estádio, longe pacas.

Chegando à estação de transbordo, uma demora eterna para chegar algum carro (já viu como pobre adora chamar buzu assim?) para meu destino. Ao avistar o primeiro, as dezenas de rubro-negros que estavam com o mesmo objetivo que eu avançaram. Não sei como entrei e como saí do ônibus, mas cheguei ao campo vivo. Entrei no estádio com uns 10 minutos de bola rolando, após pagar ingresso majorado na mão de cambista.

Minha abnegação valeu a pena. O Vitória de Petkovic meteu 2x0, com gols do meia cabeça-oca Kléber, no primeiro tempo, e do obscuro atacante Narcízio, de peixinho, no segundo. Até o contestado goleiro Nílson mandou bem, pegando um pênalti inexistente marcado pelo gaúcho Simon. Não sabia como voltaria para casa, pois já era quase meia-noite quando o jogo acabou (fiz cara de cachorro sem dono e arrumei carona com um irmão rubro-negro), mas estava feliz e com sentimento de dever cumprido.
Tudo bem que uma semana depois o Vitória entregou a classificação às finais de bandeja para o Juventude, após perder para os reservas do Atlético-MG. Porém, houve a compensação de que o resultado dos gaúchos rebaixou o "time da fila" para a Segundona, de onde jamais saíram no campo, mácula moral indelével. Ocorreu algo mais importante, todavia. Naquela noite mágica, o Vitória mais uma vez mostrou que meu amor por ele tem reciprocidade. Ele nunca me abandonará.


Faça todo dia um feliz Dia dos Namorados e muitos vivas aos amores de verdade!!!!!


PS: Não demorei muito tempo naquele emprego, graças ao meu bom Deus...

José Raimundo Silveira

Militar, jornalista e rubro-negro desde os tempos de Ricky.

E-mail: tencerqueira@gmail.com

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